sexta-feira, 3 de agosto de 2007

A diferença entre emprego e trabalho

Um pequeno conto para se refletir:

A diferença entre emprego e trabalho

Um empresário americano, do ramo de construções, passeava por uma estrada, na Rússia comunista, quando avistou várias pessoas no que parecia ser uma obra. O empresário parou, desceu do carro e observou a cena: vários homens, munidos de pás, trabalhavam intensamente numa escavação. O empresário dirigiu-se ao homem que julgou ser o mestre de obras e perguntou:

– O que vocês estão construindo?
– Estamos escavando um túnel, senhor. O governo quer fazer um grande túnel nessa região.
– E para que tanto trabalho braçal? Eu posso lhes vender duas escavadeiras que fariam todo o trabalho em muito menos tempo e por um preço bem menor do que a mão-de-obra atual.
– De jeito nenhum! E o que aconteceria com o emprego de todos esses homens? Preferimos manter do jeito que está.
– Ora, eu achei que o objetivo de vocês era construir um túnel, e não justificar o emprego de tanta gente. Se esse é o caso, melhor lhes tirarem as pás e lhes darem colheres.


sábado, 20 de janeiro de 2007

Turismo intelectual: Minha conversa com Janer Cristaldo

Janer Cristaldo

Cansado de ler obras de ficção e buscando por literaturas mais contemporâneas, tomei conhecimento, no final de 2004, das crônicas do escritor e jornalista Janer Cristaldo. Dono de uma inteligência e erudição únicas, Janer discorre de forma divertida em seus textos sobre variados assuntos, comumente focando-se em política e suas variações. Até então eu detestava política. Só depois que passei a ler seus artigos é que entendi melhor o assunto e comecei a interpretar notícias, em vez de engoli-las, e vi que há muito a ser lido nas entrelinhas.

Cristaldo foi, por assim dizer, o pivô para que eu reavaliasse minha maneira de escrever (e pensar). Antes, apenas despejava aqui pensamentos aleatórios. Só quando me propus a escrever textos mais longos é que percebi a influência de Janer e de outros articulistas semelhantes. Influência, bem entendido, não significa imitar, mesmo porque há assuntos abordados por ele dos quais divirjo completamente.

Em meados de 2005 enviei-lhe um e-mail comentando uma de suas crônicas. Nem esperava resposta, mas ela veio. Começamos, então, a trocar alguns e-mails - bem poucos, na verdade, pois não queria incomodar.

Durante a Bienal do Livro, em 2006, Cristaldo publicou um artigo mencionando meu blog, o que aumentou bastante o número de visitantes. Ao agradecer-lhe a citação, veio o convite: "precisamos confraternizar um dia desses". Infelizmente nunca me sobrava tempo e o encontro só veio a acontecer na última semana de 2006.

Marcamos, então, em um bar de Higienópolis. Chovia naquele fim de tarde, mas a temperatura estava agradável. Escolhemos uma das mesas na calçada para nos acomodar e lá ficamos. Foram quase quatro horas de uma conversa como há muito eu não tinha.

Janer Cristaldo é o tipo de pessoa que possui uma enorme bagagem de vida, disposto a compartilhá-la com quem se sentar à mesa para ouvi-lo. Conversamos de tudo um pouco, mas eu estava interessado mesmo em suas experiências de viagens. Tenho uma fascinação pela Europa e praticamente tudo o que diz respeito ao Velho Mundo, e Janer morara um tempo em Estocolmo, além de viajar freqüentemente para o continente europeu.

Conhecer outro país através dos olhos de alguém que sabe descrever seus ares, odores e cores é, talvez, mais interessante do que realmente estar nesse país. Em certo ponto da conversa, Cristaldo me perguntou se já estivera na Europa. Diante da minha negativa, disse ele: - Invejo-te! - Como assim? - perguntei, e a resposta: "Quando partires para lá, tu ainda terás a emoção e ansiedade da viagem, de chegar a lugares novos e vislumbrar paisagens e pessoas diferentes". E continua: "Essa emoção eu a perdi, hoje conheço Paris melhor do que São Paulo, e ir para lá já não me desperta a sensação de novidade". De fato, um ponto de vista interessante.

"Qual o país mais belo da Europa?", perguntei. Sem pensar, respondeu: "Noruega, sem dúvida! Os fiordes oferecem paisagens inigualáveis com gelo, montanhas e mar unindo-se em vistas espetaculares". E o melhor para se viver? Espanha.

As descrições dos caminhos percorridos por Cristaldo só aumentaram minha vontade de conhecer todos aqueles lugares. Perambular pelas ruas de Viena, saborear os famosos pães franceses com patês e vinhos, respirar os ares do berço da arte. Conhecer a Europa é uma das minhas metas depois de casar. Janer prontificou-se a dar-me dicas de roteiro e hospedagem.

Para Janer, só se conhece um país freqüentando seus bares. "Você não conhece um país visitando museus, precisa ir a bares e restaurantes para ter contato real com as pessoas". Cristaldo também gosta de experimentar as culinárias exóticas de cada país, mencionando um famoso peixe enlatado da Noruega que, segundo ele, tem cheiro e gosto de coisa podre, mas, "se uma nação inteira gosta, é porque deve ser bom".

De repente, uma senhora, conhecida de Janer, juntou-se a nós para pedir conselhos: - Ai, Janer! - dizia ela - estou com medo, o que vai acontecer agora que Lula foi reeleito? - Nada - respondeu ele - deviam se preocupar na época em que ele foi eleito, agora que lhe deram mais quatro anos, que ele fique por lá até o fim. Mais alguns minutos de papo e a senhora nos deixou, já menos apreensiva. Falamos bastante de política, mas eu me concentrava na Europa.

Apreciador de boa música, Cristaldo citou preferências como Mozart e disse detestar Wagner. Mencionou alguns intérpretes da música francesa, italiana e norueguesa. Também mostrou-se fã da música "mariachi" e da cantora Inezita Barroso (!). Rock ou música americana? Nem pensar.

Aproveitei para perguntar-lhe se conhecia os Estados Unidos. "Sim", respondeu, "para não dizer que sou preconceituoso, estive lá uma vez. Não gostei. Os prédios altos da 5ª Avenida causam um vento encanado muito forte"!

E o misterioso Oriente? Também não. "Se você quiser ver as pirâmides do Egito", disse, "são bonitas e valem o contato com a História, mas o Cairo é horrível! Quente e sujo! Prefiro o conforto dos hotéis europeus". Japão, China e afins também nunca despertaram interesse em Janer, mas uma cidadezinha perto do Pólo Norte chamou sua atenção.

"Gostaria de conhecer o bar dessa cidade, que possui 1500 habitantes e 3000 ursos! As pessoas precisam andar armadas o dia todo caso surja um urso intrometido". Perguntei-lhe o que tinha para se fazer num lugar desses: "Nada! Não há nada para fazer, e é exatamente por isso que ainda não fui para lá, pois nunca viajo sozinho e é difícil convencer uma companhia a partilhar tal aventura".

A conversa desenrolou-se por outros temas: literatura, arte, religião, comportamento. Chegamos ao ponto de esgotar certos assuntos e ficarmos apenas parados, bebendo e olhando o movimento na rua.

Este texto renderia muitos parágrafos mais se eu fosse comentar detalhadamente essas quatro horas de conversa. Fiz uma verdadeira viagem intelectual através das descrições e opiniões de Janer. Um contato enriquecedor, sem dúvida.

Ao levantarmos para ir embora, notei um belo restaurante do outro lado da rua. "É muito bom", afirmou Cristaldo, "aos sábados servem uma feijoada excelente aí". Eu disse que viria experimentar um dia desses, e ele me pediu que marcasse a data e, se quisesse companhia, era só chamar.

Sem dúvida, caro Janer, sem dúvida. E desta vez, tentarei marcar para antes do fim do ano.

Atualização 27/10/2014


Infelizmente este reencontro nunca aconteceu. Acabei sempre adiando a outra visita ao Janer e, com o tempo, ele adoeceu, o que tornou tudo ainda mais difícil. Chegamos a trocar mais alguns e-mails nesse meio tempo. Mas no dia 27/10/2014, o Brasil perdia uma de suas maiores mentes lúcidas e inteligentes e, na minha opinião, o maior cronista que este país já teve.

quinta-feira, 30 de novembro de 2006

Adeus ao bom velhinho

Em 1931, a Coca-Cola solicitou ao ilustrador Haddon Sundblom que desenvolvesse a imagem de um Papai Noel "humano" - antes do trabalho de Sundblom, as pessoas imaginavam o Papai Noel (ou São Nicolau) como uma espécie de gnomo ou leprechau. O pedido da Coca-Cola baseava-se em uma resposta positiva do público a um anúncio que mostrava o primeiro conceito desse personagem que seria absorvido pelo público de todo o mundo como uma tradição natalina.

Para criar o Papai Noel, Sundblom buscou inspiração no poema de Clement Moore, de 1822, intitulado Uma Visita de São Nicolau. A descrição que Moore fez do fabricante de brinquedos como um "velho rechonchudo e bem humorado" levou à criação da imagem do Papai Noel amigável e humano que conhecemos hoje.

Sundblom usou seu amigo e vizinho, Lou Prentice, um vendedor aposentado, como modelo para as ilustrações. Após a morte de Prentice, em 1940, Sundblom passou a usar a si mesmo como modelo e, por 35 anos, pintou retratos do Papai Noel para os anúncios da Coca-Cola. Haddon Sundblom morreu em 1976.

A imagem do Papai Noel de Sundblom tornou-se uma poderosíssima marca na tradição do natal e ganhou vida própria, sendo usada como decoração e até protagonizando diversos filmes hollywoodianos. Não fosse um amigo me contar essa história anos atrás, fazendo-me pesquisar mais a fundo as origens do bom velhinho de roupas vermelhas, eu jamais faria a associação com a Coca-Cola.

Então leio nesta semana a notícia de que o Papai Noel está sendo banido da Alemanha e da Áustria, acusado de ser invenção da Coca-Cola e de destruir o verdadeiro espírito de natal. Existe por lá um movimento impedindo o uso da imagem do bom velhinho entre os comerciantes que quiserem vender suas mercadorias no natal.

"Nós somos contra as coisas materiais, a ânsia de comprar, e esse homem de barba branca e de vermelho destruiu o real espírito do natal", afirma Bettina Schade, uma das organizadoras do movimento. Que Papai Noel jamais teve ligação alguma com o natal, compreende-se. Mas acusá-lo de fomentar o materialismo e a ânsia de comprar simplesmente porque sua imagem foi concebida pela Coca-Cola (há 75 anos!), é ridículo. Aliás, o conceito do Papai Noel já existia há muito mais tempo e é originário da própria Alemanha. A senhora Bettina deveria lutar, então, contra todo o comércio no natal - se usar a imagem do Noel, não pode vender; mas se não usar, pode? Que se proíba também o poema de Clement Moore. Ou, melhor ainda, por que ela não se movimenta para impedir o consumo de Coca-Cola no natal?

Até onde consigo lembrar, sempre ouvi dizer que o natal estava "comercial demais", portanto, afirmar hoje que o Papai Noel destruiu o espírito do natal não faz muito sentido. Aliás, arrisco dizer que esse "espírito" só existe no inconsciente coletivo das pessoas, porque ninguém sabe dizer como seria um natal "não comercial".

Existe, claro, a questão religiosa, mas nessa parte prefiro não entrar. Há quem comemore o natal e quem não comemore, assim, que cada um faça o que lhe parecer melhor. Não custa dizer, entretanto, que, dado o verdadeiro significado do natal, ele poderia ser comemorado todos os dias do ano, dentro do coração das pessoas, sem a necessidade de uma data específica para isso. Bolas, árvores, neve artificial, luzes coloridas e todo o resto são nada mais do que simples objetos.

Eu poderia até dar razão à Bettina Schade, se seus argumentos fossem outros além do patogênico combate ao consumismo, usando a Coca-Cola como desculpa para disparar suas farpas. Se nessa época do ano as vendas podem melhorar e ajudar a vida de patrões e empregados, por que lutar contra? Que vendam mais e mais! Não será a presença ou ausência do Papai Noel que influenciará as pessoas a comprarem.

Confesso que nunca acreditei em Papai Noel. Sempre soube que aqueles senhores de vermelho que eu via em shoppings eram apenas velhinhos contratados para alegrar as crianças e atrair os pais. É dessa forma que pretendo criar meus filhos, instruindo-os desde os tenros anos a identificar um engodo. Vocês podem dizer que a criança precisa de fantasias para desenvolver a imaginação. Concordo, mas fantasias não se restringem a Papai Noel. As fábulas de Ésopo, por exemplo, são riquíssimas em conteúdo e nem um pouco enfadonhas.

Por fim, criação da Coca-Cola ou não, Papai Noel é apenas um personagem fictício. O que não é o caso do Coelhinho da Páscoa. Esse sim existe! E ninguém me convencerá do contrário.

quarta-feira, 4 de maio de 2005

Um Dia de Fúria

Se existe um dia da semana que eu detesto, esse dia é quarta-feira. As quartas parecem debochar de mim, avisando que o último fim de semana já passou há dois dias e que ainda faltam mais dois para o próximo. Fora isso, quarta-feira também é o rodízio do meu carro, o que me força a acordar ainda mais cedo para ir trabalhar de ônibus.

Entretanto, quis o destino que justamente nessa última quarta (04/05/2005) eu presenciasse uma das cenas mais surreais que já vi na vida. E justamente por ter ido trabalhar de ônibus. Eram aproximadamente 08h40 quando desci no meu ponto e peguei o caminho em direção à agência. A manhã estava fria, mas havia sol, o que tornava a caminhada agradável. Andava despreocupado, olhando para o chão. Então, faltando exatamente um quarteirão para chegar ao serviço, enquanto atravessava um cruzamento, um som bem conhecido chamou minha atenção: pneus cantando no asfalto.

Como que desperto de um transe, ergui a cabeça a tempo de ver dois carros, uma Mercedes e um Gol, rodopiando simultaneamente na pista, próximo ao farol onde eu me encontrava. Não sei explicar como isso começou, parece que a Mercedes fechou o Gol pela direita, os dois deram um pequeno "encostão" e isso desencadeou o balé de mais de duas toneladas de metal. Num esforço tremendo, o motorista do Gol conseguiu controlar o veículo e parou exatamente de frente para uma pequena clínica de entrada recuada. Aproveitando o momento, o Gol entrou e estacionou na clínica.

Já a Mercedes não teve tanta sorte. Rodou duas vezes, tentou se estabilizar, mas não conseguiu. Mesmo freando, ele derrapou no lado oposto à clínica, batendo de frente na lateral de um outro Gol, estacionado perto da esquina do cruzamento, cerca de cinco metros à minha frente. No mesmo instante vi os pneus direitos desse Gol serem prensados contra a calçada, além de imaginar o estrago no lado do impacto. Pude ver, também, que o motorista da Mercedes era um senhor de idade, já com seus setenta anos.

Foi então que, sem mais nem menos, o motorista da Mercedes, aproveitando que o trânsito estava parado – o que lhe concedia espaço suficiente – engatou a ré, saiu de "dentro" do Gol estacionado e, fazendo uma curva surpreendentemente rápida, acelerou como nunca e mirou o Gol que havia parado na clínica. O motorista do Gol, que estava quase saindo do carro, não teve outra alternativa a não ser entrar novamente no veículo. O impacto foi fulminante. A Mercedes jogou o Gol para dentro do estacionamento da clínica, fazendo-o atravessar uma grade de ferro, arrancar uma base de concreto e derrubar o corrimão de metal que ficava na escada da entrada. O Gol só não caiu em uma vala que havia após a grade porque ficou prensado entre uma árvore e a Mercedes, mas isso não o impediu de ficar na perpendicular.

Não contente com sua performance, o velhinho da Mercedes saiu do carro, dirigiu-se ao Gol esmagado e, apontando freneticamente o dedo para o outro motorista, gritava algo como "Tá vendo? Você não queria bater? Pois então, agora bateu!". Nesse momento o local já estava repleto de curiosos. O motorista do Gol teve que sair pela janela do carro, visto que a porta estava inutilizada. Percebi que era um homem forte e sua estatura era quase o dobro da do velhinho. Mesmo assim, ele trazia no rosto uma expressão que mesclava pânico e incompreensão, e sequer respondia às acusações do inflamado ancião. Terminando de despejar todo o vocabulário de palavrões existente, o motorista da Mercedes simplesmente virou-se, saiu andando e foi trabalhar a pé, deixando o carro ligado.

Recuperado do espetáculo, também fui trabalhar. Chegando na agência, relatei o ocorrido e eis que surge a ideia: voltar ao local do acidente, munido de uma câmera, e registrar os fatos. Assim fiz, acompanhado de mais um colega de serviço. Nesse momento já haviam chegado viaturas da polícia e o dono do Gol prestava depoimento. Pelo que pude escutar, os dois carros já vinham se "estranhando" desde outras ruas, resultado de um retrovisor quebrado. Entre as dezenas de curiosos, também ouvi que o motorista da Mercedes era dono de uma clínica ali perto e foram chamá-lo. Meu colega ainda comentou: "Depois dessa, espero que ele não seja dono de uma clínica psiquiátrica!".

Finalmente o velho chegou, aparentando uma serenidade de monge tibetano. Solícito, apresentou seus documentos aos policiais e começou a conversar. Nesse momento consegui bater as fotos que desejava e fomos embora, o espetáculo havia terminado. O que impressionou foi a resistência da Mercedes, a qual sofreu dois impactos frontais e sofreu apenas amassados leves no capô, enquanto o Gol não teve a mesma felicidade.

Isso me fez pensar bastante. Quase nunca me envolvo em discussões de trânsito, mas, depois disso, passarei a tomar um cuidado redobrado. Nunca se sabe quem está atrás do volante. Um simpático velhinho pode ser tornar, de uma hora para outra, uma máquina assassina. Apesar de tudo, deve-se considerar a iniciativa do velho. Em poucos segundos destruiu dois carros mais a entrada de uma clínica apenas para satisfazer seu ódio. Ele fez o que muitos de nós gostaríamos de fazer, mas nunca tivemos coragem (ou dinheiro) o suficiente.


Finalizando, para provar meu relato, abaixo estão os links para as fotos que tirei. Na segunda e terceira imagem é possível ver o dono da Mercedes dentro do carro, entregando os documentos aos policiais:









quarta-feira, 2 de fevereiro de 2005

Por que detesto o carnaval


Por que detesto o carnaval

E estamos a poucos dias do tão aguardado carnaval. Aguardado, devo ressaltar, não por mim, mas pelos milhares de 'foliões' brasileiros que esperam ansiosamente para 'cair na gandaia'. Particularmente detesto o carnaval, não suporto samba ou qualquer coisa relacionada a isso. E não é de agora. Desde criança nunca tive muita afinidade com essa parte da nossa 'cultura'. Uma das coisas que me faziam detestar o carnaval era a exibição dos desfiles e apurações das escolas de samba na televisão. Quase todas as emissoras mudavam sua programação vespertina, transmitindo o carnaval e eliminando a sessão de desenhos animados durante a tarde toda. Para uma criança que queria aproveitar os dias em casa assistindo Fantomas, Menino Biônico, Patrulha Estelar e outros, não havia nada pior do que o carnaval.

Acho que a única vantagem dessa época é o fato de ser feriado. De resto não consigo ver nada de proveitoso em salões entupidos de gente pulando feito pipoca e suando como porcos, músicas de fazer inveja a qualquer método de lavagem cerebral, drogas sendo consumidas feito água, o sexo mais banalizado do que nunca, pessoas caindo bêbadas pelas ruas, aumento de crimes, brigas, mortes e acidentes em várias estradas. Mas tudo bem, pois, essa é uma festa do povo, não? O brasileiro, tão sofrido, tem o 'direito' de se divertir. E -– pergunto eu, ignorante -– essa é a única forma de diversão que conhecemos?

Outra coisa que não consigo entender são os milhares e milhares de reais gastos em fantasias, carros alegóricos, etc. Todo mundo vive reclamando da falta de dinheiro o ano inteiro, mas eis que, durante a época festeira, este tão perseguido conforto financeiro surge como que por mágica. O governo, é claro, faz seu papel e também contribui para essa diversão sadia -– pane et circenses. Só aqui, mesmo, é que vemos um morador de favela dizer que desfilar no carnaval é a realização do sonho da sua vida, alegando que todas as suas dificuldades são esquecidas na passarela – passa-se fome, mas a diversão está garantida. Daí concluo, então, que depois de desfilar no carnaval, qualquer pessoa poderia morrer em paz, pois estaria realizada. Ter uma vida digna, educação, saúde, crescimento profissional e colaborar com o desenvolvimento da sociedade são apenas detalhes mínimos se comparados à magia de estar comemorando a tal "festa da carne".

Como se não bastasse nosso próprio povo ficar deslumbrado com essa balbúrdia, nessa época também somos invadidos por turistas oriundos dos mais diversos lugares do planeta. E a mídia brasileira usa e abusa dos estrangeiros para enaltecer essa perda de tempo. Toda hora aparece um alemão, suíço ou japonês dando entrevista e dizendo que essa é a "melhor festa do planeta". Sem dúvida, se o que você procura se encaixa no que descrevi dois parágrafos acima, o carnaval é o lugar ideal para se estar.

Mas esperar o quê de um país como o nosso? Estamos há tanto tempo atolados na lama, que qualquer coisa que se assemelhe à diversão é recebida de braços abertos. E assim passamos os anos, repetindo os mesmos erros do passado e tapando os ouvidos para as poucas vozes revestidas de razão que se levantam, vez ou outra, para tentar nos despertar desse engodo a que nos submetemos por décadas a fio. Essas vozes, entretanto, são cada vez mais raras e dispersas, abafadas pelo som em uníssono de uma multidão ruidosa que clama aos quatro ventos: ala-laô-ô-ô-ô-ô!


quarta-feira, 8 de dezembro de 2004

Welcome to Brazil

Todos os dias somos confrontados por notícias que incentivam a tão falada "luta de classes". Pobres x ricos, patrões x empregados, homens x mulheres, negros x brancos e por aí vai. Basta acessar a página inicial de qualquer website de notícias ou mesmo abrir o seu jornal favorito para se deparar com esse tipo de "desinformação". Algumas vezes de forma subliminar, outras, mais descaradas. O importante é disseminar o ódio.

Os ingênuos caem no "conto do vigário". Acham que a desigualdade do país é culpa do "sistema" e da "burguesia". Se perguntarmos à maioria o porquê desse ódio, quase ninguém saberá responder. Não percebem que o Estado é o maior causador da desigualdade, e não as empresas. De forma grosseira, podemos explicar que a empresa visa o lucro por intermédio da venda de seus produtos. Quanto mais ela vende, melhor. E, para vender mais, são necessários mais compradores, ou seja, pessoas com poder aquisitivo elevado, dispostas a trocar seu dinheiro por algum produto. É interessante às empresas, portanto, que o país tenha uma economia forte e estável, sem pobreza. É aí que reside o erro de muitas pessoas ao acreditarem que os governos são os "salvadores da pátria", enquanto os empresários são inescrupulosos. Não é bem assim. Ter um Estado que monopoliza tudo é regressar aos tempos de feudos e barbáries.

Lógico que existem centenas de empresários mercenários, que justificam certas reclamações - eu mesmo conheci alguns pessoalmente. A esses, nada mais correto do que manifestar nosso repúdio. Fazer uma empresa funcionar requer muito mais do que vender, é necessário beneficiar seus funcionários e fornecer condições apropriadas de trabalho. Mas e quando a ganância e a intenção de lucro deixam o setor privado para se estabelecerem confortavelmente no Estado, criando víboras insaciáveis? Relato abaixo um exemplo.

No final do ano 2000, fui intérprete de um executivo suíço de uma multinacional, fabricante de aceitadores de cédulas e moedas - desses encontrados em máquinas de refrigerantes, salgadinhos e outros. Pude comprovar a qualidade dessas máquinas, que aceitavam notas rasgadas, molhadas e envelhecidas, mas recusavam qualquer tipo de falsificação, além de dar o troco corretamente. Pois bem, agendamos uma reunião com a diretoria do Metrô de São Paulo, a fim de oferecer ao governo o equipamento para ser instalado nas máquinas que vendem bilhetes.

Durante a reunião, Maurice, o suíço, fez o possível e o impossível para demonstrar as vantagens de se utilizar um aparelho altamente seguro tanto para o Metrô quanto para os usuários. A qualidade do produto não deixava dúvidas, e seu preço era muito bom. Porém, enquanto o suíço falava, fui percebendo diversas trocas de olhares entre os diretores do Metrô. Ao término da apresentação, após alguns questionamentos técnicos, cogitou-se a possibilidade de o Metrô utilizar um equipamento melhor em suas máquinas. A negação da diretoria foi unânime.

Em alto e bom som, eu os ouvi dizerem: "Nós não nos importamos se os usuários do metrô passam duas horas na fila ou dois segundos numa máquina, contanto que comprem os bilhetes. Se a máquina não funcionar direito, eles vão para os guichês". E ainda: "Já temos uma empresa que instala esses aceitadores de cédulas. Não é tão bom como o de vocês, mas não estamos preocupados com a qualidade. O metrô é essencial para a população e não serão essas máquinas que atrairão mais usuários".

Traduzir aquilo foi, para mim, muito complicado. A reunião terminou logo após esse diálogo. Minutos depois, no elevador, Maurice, com o rosto perplexo e os olhos cheios de indagações, me perguntou como era possível que representantes do governo não se preocupassem com o bem estar da população. "Se provamos que nosso equipamento é melhor, mais seguro e mais barato, por que insistem em rejeitar a qualidade e utilizar aparelhos inferiores?" - questionou-me o suíço. Maurice podia ser um excelente negociador, mas aparentemente não estava acostumado com as falcatruas brasileiras. Ficou óbvio, para mim, que, naquela mesa de reunião, todos, com exceção de Maurice e eu, estavam recebendo dinheiro para favorecer a outra empresa "inferior", seja ela qual fosse. Diante dos olhos indagadores do suíço, preferi omitir o que me passava pela cabeça e deixei escapar apenas três palavrinhas mágicas: "Welcome to Brazil!"