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domingo, 6 de novembro de 2016

Por que parei de ler notícias (e por que você deveria fazer o mesmo)

Há um bom tempo deixei de ler notícias. Ou, colocando em outra perspectiva, deixei de me importar com notícias. Parei de acessar sites de notícias do país e, principalmente, deixei de ler sobre política, tema pelo qual sempre me interessei.
Não que esteja alienado, pois é impossível não saber ao menos as principais manchetes, já que elas chegam até você, queira ou não.
Mas procuro não clicar nos links e, também, tenho cumprido o que prometi a mim mesmo: Nunca mais debater na internet.
Eu já andava meio distante das notícias e evitando embates inúteis, mas acabei por remover essa perda de tempo definitivamente.
Tomei essa decisão quando ouvi alguém que admiro comentar que “somos só peregrinos aqui”. Por mais óbvio e clichê que essa frase pareça, e por mais que já a tenha ouvido antes, naquele dia ela ecoou diferente dentro de mim e foi o empurrão que faltava para que eu tomasse essa decisão em definitivo, livrando-me finalmente do que me fazia perder tempo.
E o que isso mudou efetivamente na minha vida?
O primeiro ganho imediato foi a paz. A indescritível sensação de alívio ao notar que você vive bem (e melhor!) sem tantas informações no seu dia. Você não precisa saber tudo o que está acontecendo, e muito menos se importar com tudo.

Foi como se tivesse removido um muro que carregava nas costas todos os dias. Afinal, você acaba percebendo não faz nada de útil com as notícias que lê. Ao contrário, elas te deixam mais irritado e nervoso.

O político tal foi pego em corrupção? Aquele outro quer acobertar falcatruas? Estão querendo mudar isso ou aquilo? Ganhou este ou aquele na eleição? O ator/atriz apoia isso ou aquilo? E daí? Há quem os aplauda, e há quem os critique. Eu resolvi não ser nenhum dos dois, pois, olhando hoje quem ainda continua debatendo nas redes sociais, noto o quão chato e inconveniente fui. E com isso, vem o alívio de não mais fazer parte desse atraso de vida.

Isso não muda em absoluto minhas convicções, crenças e valores. Eu não preciso ficar argumentando, debatendo e ‘provando’ que estou certo, enviando links e citações a quem quer que seja. A mim, basta-me a paz e exemplificar minhas crenças no meu modo de viver e tratar os outros. Buscar sempre a razão e a lógica pode ser o maior limitador da sua vida.

Meu segundo ganho foi o tempo. Para ser mais produtivo e para estudar o que realmente faz a diferença na minha vida. Como disse no início do texto, não parei efetivamente de ler notícias, mas deixei de me importar com as que em nada me acrescentam.

Ainda gosto de bom jornalismo, de bons textos e artigos. Estes eu encontro lá fora. Seja o Corriere della Sera italiano, o Le Monde francês, o El País espanhol e um ou outro artigo de negócios do Huffington Post americano (que não é grandes coisas, também). Estes dois últimos, por sinal, têm versões brasileiras que recomendo passar longe – falta à criançada que lá escreve boas doses de realidade, maturidade e espírito investigativo em vez de opinativo.

Minha fonte de informações mais eficaz tem sido o Flipboard, aplicativo que agrega notícias de acordo com as preferências de leitura do usuário. Montei lá minhas ‘revistas digitais’ com os temas que me interessam e são relevantes para o meu trabalho e desenvolvimento pessoal (sem nenhuma fonte brasileira, diga-se de passagem), e é dali que tiro minhas informações.

Sem falar nos livros – tanto os de papel quanto os e-books. Estes não faltam aqui em casa.

Assim, caríssimo leitor, se você tem vontade de deixar para trás o que em nada lhe acrescenta, se quer sentir-se mais leve e livre de sentimentos negativos, se quer parar de se irritar e ficar brigando com seus amigos, vai, dá esse passo agora: Fecha essa página de notícia. Ela não é mais importante do que a sua paz de espírito.

A opinião daquela pessoa não “dividiu a internet”, pois amanhã ninguém vai lembrar dela. Aquele vídeo ou foto não “viralizam”, pois só meia-dúzia de leitores do site viu e já esqueceu.

Os veículos de comunicação se preocupam mais com pageviews do que com fatos. Não caia nessa – se eles realmente quisessem oferecer conteúdo de qualidade, dariam pouca ou nenhuma visibilidade às seções de entretenimento (que falam da vida dos ‘famosos’, novelas, etc.). Mas como a quantidade de parceiros sexuais daquela atriz rende mais acessos, que se há de fazer?

Sim, é importante estar bem informado. E uma rápida corrida de olhos nas principais manchetes do dia é o suficiente para isso. Se quer ler algo que valha a pena, então comece pelas seções de Dinheiro e Economia, junto com as de Ciência e Tecnologia. É lá que está o que realmente interessa.

Que mais não seja, é gratificante a sensação de quando alguém chega para você, esbaforido, e pergunta “soube da última”? E você, com um sorriso no rosto que lhe confere o aspecto de um Buda embriagado, apenas responde: “Não, e não preciso saber”.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Brasileiros pagam R$ 15 mil para ouvir pessoas falando português

Pelo preço de uma viagem de sete dias à Europa, você pode desfrutar a virada do ano em... São Paulo. É o que nos diz a matéria de Alexandre Bazzan para o Estadão, que você pode ler aqui.

De acordo com a reportagem, os preços de hospedagem em alguns hotéis do litoral norte de São Paulo durante o réveillon equivalem a uma semana em Paris, Madri ou Berlin. O Hotel Aldeia de Sahy, por exemplo, possui pacotes para duas pessoas que variam de R$ 11 mil a R$ 13 mil. Por esses mesmos R$ 13 mil o casal pode curtir a virada do ano em Roma – passagens aéreas inclusas. Se a grana estiver curta, Lisboa ou Madri saem por R$ 8 mil e R$ 10 mil o casal.

Que hotéis brasileiros queiram aproveitar a virada do ano para faturar, nada contra. Sou ferrenho defensor do bom e velho capitalismo. Também não questiono a qualidade desses hotéis – muitos possuem padrões internacionais – apesar de hotéis europeus com a mesma qualidade não cobrarem esse absurdo.

O que me espanta é o fato de brasileiros desembolsarem pequenas fortunas para permanecerem no Brasil durante o réveillon. Ora, se tenho à disposição treze ou quinze mil reais para viajar, a última coisa que eu quero é ouvir pessoas falando português ao meu redor.

O Brasil eu o tenho o ano inteiro. Se é possível escolher, por que me acotovelar entre brasileiros pulando sete ondinhas na praia, se posso ver a queima de fogos na Torre Eiffel, ouvindo a língua de Descartes acompanhado de bom vinho? Ou caminhar pelas ruas cobertas de neve na Alemanha, apreciando a arquitetura e a história viva ecoando pelas paredes. Ou ainda curtir a animação dos madrilenos e todos os encantos que a Espanha oferece.

As pessoas que pagam caro para ficar no Brasil vivem em ‘bolhas’. São os que dizem que este é o melhor país do mundo e, mesmo quando viajam para fora, não se esforçam para aprender outro idioma e cultura. É o sujeito que vai ao Japão e acha tudo horrível porque lá não tem feijoada e churrasco.

E, claro, além do motivo cultural (ou a falta dele), há o fator status. O brasileiro, em especial o paulista, adora pagar caro para se exibir. Não é o fato de ir a um bom restaurante ou possuir um bom celular, mas sim ser visto nesse restaurante portando o celular. Ele sequer sabe mexer no celular e nem gosta dos pratos do restaurante – mas se todo mundo vai, ele tem que ir também. Perde-se aí duas capacidades intelectuais essenciais: a opinião e a comparação.

Enfim, o Brasil oferece boas opções para quem vai ficar por aqui no réveillon. E não chegam nem perto dos valores cobrados por esses hotéis.

Se você não tem condições de escapar e vai ficar no Brasil na virada do ano, faça um favor ao seu intelecto (e ao seu bolso): Não pague caro para ouvir pessoas falando português.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

O que podemos aprender andando de metrô

O que podemos aprender andando de metrô
Há um ano e meio tenho ido trabalhar de metrô. Metrô e trem. O carro fica com minha esposa, que leva 15 minutos pra chegar ao trabalho; enquanto eu levo cerca de 1h20 (mesmo se fosse de carro). Foi uma decisão lógica, já que gastamos a mesma coisa – eu com passagens, ela com gasolina. Se invertêssemos, ela continuaria gastando o mesmo, já eu triplicaria esse valor.


Mas não é sobre gastos que pretendo falar, e sim com o fascinante aprendizado antropológico que se pode aprender no metrô e trem. Meu trajeto consiste em pegar a Linha Verde na Estação Vila Prudente, seguir até a Consolação, fazer baldeação para a Linha Amarela, seguir para a Estação Pinheiros, fazer baldeação para a CPTM na Linha Esmeralda e ir até a Estação Berrini. De lá, mais uns 10 minutos de caminhada até a empresa. Na volta, é o caminho inverso.

Ando de metrô em São Paulo desde garoto, quando só existiam as linhas Vermelha e Azul. Minhas incursões ao centro da cidade, às livrarias e sebos, à Galeria do Rock e ao bairro da Liberdade sempre foram feitas de metrô – mesmo depois de ter um carro. Mas é claro que os tempos mudaram. A fauna aumentou e, com ela, o contato e o calor humano. Creio que uma salutar visita ao metrô e aos trens da CPTM poderia explicar muito sobre os hábitos coletivos do paulistano. Qualquer sociólogo ou antropólogo pode se deliciar com uma infinidade de informações. Eu mesmo já aprendi muito, como listo a seguir.

Andando de metrô e trem eu aprendi que:

  1. As pessoas não sabem a diferença entre esquerda e direita nas escadas e corredores.
  2. Educação e respeito são itens opcionais, portanto, deixe-os em casa.
  3. Fila indiana por ordem de chegada é bobagem, amontoe-se ao lado do primeiro da fila e entre correndo na frente dele assim que as portas abrirem.
  4. As placas de sinalização estão ali com o objetivo de serem ignoradas.
  5. Os engenheiros que projetaram as estações são babuínos com Alzheimer que nunca tiveram contato com um ser humano na vida.
  6. O fato de desligarem as escadas rolantes e esteiras em horários de pico só reforça a afirmação acima.
  7. Zíbia Gasparetto é a alta cultura literária dos usuários da Linha Verde. Na Linha Amarela, você só é culto se estiver lendo os pesados volumes de Game Of Thrones (em inglês, nunca as traduções).
  8. Ninguém nasce com preconceito, ele é adquirido andando de trem e metrô.
  9. Se você vai descer na próxima estação e o vagão está lotado, espere até as portas abrirem para avisar isso e comece a empurrar todo mundo.
  10. Trens lotados não significam que você deve esperar o próximo, e sim jogar-se para dentro até quebrar as costelas de alguém.
  11. Nem todos os idosos são bonzinhos e adoráveis.
  12. Nunca se deve esperar as pessoas saírem do vagão para entrar. Empurre-as de volta na aglomeração como se sua vida dependesse disso.
  13. Responder mensagens pelo celular (ou ler um livro) enquanto anda é ótimo para atrasar a vida de todos que estão atrás de você.
  14. Os bancos reservados para idosos e deficientes causam sonolência incontrolável em pessoas comuns. Sem falar na dor, pois muitos que sentam nesses bancos sob o olhar reprovador das pessoas fazem uma careta de dor, fingindo passar mal.
  15. A Linha Esmeralda (CPTM) já teve mais de 91 falhas desde o começo do ano, ou seja, de janeiro pra cá, foram praticamente três meses com problemas.
  16. O ser humano não foi criado para viver em sociedade.
Se você também tirou grandes lições de vida do transporte público, fique à vontade para comentar e aumentar esta lista.

sábado, 20 de janeiro de 2007

Turismo intelectual: Minha conversa com Janer Cristaldo

Janer Cristaldo

Cansado de ler obras de ficção e buscando por literaturas mais contemporâneas, tomei conhecimento, no final de 2004, das crônicas do escritor e jornalista Janer Cristaldo. Dono de uma inteligência e erudição únicas, Janer discorre de forma divertida em seus textos sobre variados assuntos, comumente focando-se em política e suas variações. Até então eu detestava política. Só depois que passei a ler seus artigos é que entendi melhor o assunto e comecei a interpretar notícias, em vez de engoli-las, e vi que há muito a ser lido nas entrelinhas.

Cristaldo foi, por assim dizer, o pivô para que eu reavaliasse minha maneira de escrever (e pensar). Antes, apenas despejava aqui pensamentos aleatórios. Só quando me propus a escrever textos mais longos é que percebi a influência de Janer e de outros articulistas semelhantes. Influência, bem entendido, não significa imitar, mesmo porque há assuntos abordados por ele dos quais divirjo completamente.

Em meados de 2005 enviei-lhe um e-mail comentando uma de suas crônicas. Nem esperava resposta, mas ela veio. Começamos, então, a trocar alguns e-mails - bem poucos, na verdade, pois não queria incomodar.

Durante a Bienal do Livro, em 2006, Cristaldo publicou um artigo mencionando meu blog, o que aumentou bastante o número de visitantes. Ao agradecer-lhe a citação, veio o convite: "precisamos confraternizar um dia desses". Infelizmente nunca me sobrava tempo e o encontro só veio a acontecer na última semana de 2006.

Marcamos, então, em um bar de Higienópolis. Chovia naquele fim de tarde, mas a temperatura estava agradável. Escolhemos uma das mesas na calçada para nos acomodar e lá ficamos. Foram quase quatro horas de uma conversa como há muito eu não tinha.

Janer Cristaldo é o tipo de pessoa que possui uma enorme bagagem de vida, disposto a compartilhá-la com quem se sentar à mesa para ouvi-lo. Conversamos de tudo um pouco, mas eu estava interessado mesmo em suas experiências de viagens. Tenho uma fascinação pela Europa e praticamente tudo o que diz respeito ao Velho Mundo, e Janer morara um tempo em Estocolmo, além de viajar freqüentemente para o continente europeu.

Conhecer outro país através dos olhos de alguém que sabe descrever seus ares, odores e cores é, talvez, mais interessante do que realmente estar nesse país. Em certo ponto da conversa, Cristaldo me perguntou se já estivera na Europa. Diante da minha negativa, disse ele: - Invejo-te! - Como assim? - perguntei, e a resposta: "Quando partires para lá, tu ainda terás a emoção e ansiedade da viagem, de chegar a lugares novos e vislumbrar paisagens e pessoas diferentes". E continua: "Essa emoção eu a perdi, hoje conheço Paris melhor do que São Paulo, e ir para lá já não me desperta a sensação de novidade". De fato, um ponto de vista interessante.

"Qual o país mais belo da Europa?", perguntei. Sem pensar, respondeu: "Noruega, sem dúvida! Os fiordes oferecem paisagens inigualáveis com gelo, montanhas e mar unindo-se em vistas espetaculares". E o melhor para se viver? Espanha.

As descrições dos caminhos percorridos por Cristaldo só aumentaram minha vontade de conhecer todos aqueles lugares. Perambular pelas ruas de Viena, saborear os famosos pães franceses com patês e vinhos, respirar os ares do berço da arte. Conhecer a Europa é uma das minhas metas depois de casar. Janer prontificou-se a dar-me dicas de roteiro e hospedagem.

Para Janer, só se conhece um país freqüentando seus bares. "Você não conhece um país visitando museus, precisa ir a bares e restaurantes para ter contato real com as pessoas". Cristaldo também gosta de experimentar as culinárias exóticas de cada país, mencionando um famoso peixe enlatado da Noruega que, segundo ele, tem cheiro e gosto de coisa podre, mas, "se uma nação inteira gosta, é porque deve ser bom".

De repente, uma senhora, conhecida de Janer, juntou-se a nós para pedir conselhos: - Ai, Janer! - dizia ela - estou com medo, o que vai acontecer agora que Lula foi reeleito? - Nada - respondeu ele - deviam se preocupar na época em que ele foi eleito, agora que lhe deram mais quatro anos, que ele fique por lá até o fim. Mais alguns minutos de papo e a senhora nos deixou, já menos apreensiva. Falamos bastante de política, mas eu me concentrava na Europa.

Apreciador de boa música, Cristaldo citou preferências como Mozart e disse detestar Wagner. Mencionou alguns intérpretes da música francesa, italiana e norueguesa. Também mostrou-se fã da música "mariachi" e da cantora Inezita Barroso (!). Rock ou música americana? Nem pensar.

Aproveitei para perguntar-lhe se conhecia os Estados Unidos. "Sim", respondeu, "para não dizer que sou preconceituoso, estive lá uma vez. Não gostei. Os prédios altos da 5ª Avenida causam um vento encanado muito forte"!

E o misterioso Oriente? Também não. "Se você quiser ver as pirâmides do Egito", disse, "são bonitas e valem o contato com a História, mas o Cairo é horrível! Quente e sujo! Prefiro o conforto dos hotéis europeus". Japão, China e afins também nunca despertaram interesse em Janer, mas uma cidadezinha perto do Pólo Norte chamou sua atenção.

"Gostaria de conhecer o bar dessa cidade, que possui 1500 habitantes e 3000 ursos! As pessoas precisam andar armadas o dia todo caso surja um urso intrometido". Perguntei-lhe o que tinha para se fazer num lugar desses: "Nada! Não há nada para fazer, e é exatamente por isso que ainda não fui para lá, pois nunca viajo sozinho e é difícil convencer uma companhia a partilhar tal aventura".

A conversa desenrolou-se por outros temas: literatura, arte, religião, comportamento. Chegamos ao ponto de esgotar certos assuntos e ficarmos apenas parados, bebendo e olhando o movimento na rua.

Este texto renderia muitos parágrafos mais se eu fosse comentar detalhadamente essas quatro horas de conversa. Fiz uma verdadeira viagem intelectual através das descrições e opiniões de Janer. Um contato enriquecedor, sem dúvida.

Ao levantarmos para ir embora, notei um belo restaurante do outro lado da rua. "É muito bom", afirmou Cristaldo, "aos sábados servem uma feijoada excelente aí". Eu disse que viria experimentar um dia desses, e ele me pediu que marcasse a data e, se quisesse companhia, era só chamar.

Sem dúvida, caro Janer, sem dúvida. E desta vez, tentarei marcar para antes do fim do ano.

Atualização 27/10/2014


Infelizmente este reencontro nunca aconteceu. Acabei sempre adiando a outra visita ao Janer e, com o tempo, ele adoeceu, o que tornou tudo ainda mais difícil. Chegamos a trocar mais alguns e-mails nesse meio tempo. Mas no dia 27/10/2014, o Brasil perdia uma de suas maiores mentes lúcidas e inteligentes e, na minha opinião, o maior cronista que este país já teve.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2005

Por que detesto o carnaval


Por que detesto o carnaval

E estamos a poucos dias do tão aguardado carnaval. Aguardado, devo ressaltar, não por mim, mas pelos milhares de 'foliões' brasileiros que esperam ansiosamente para 'cair na gandaia'. Particularmente detesto o carnaval, não suporto samba ou qualquer coisa relacionada a isso. E não é de agora. Desde criança nunca tive muita afinidade com essa parte da nossa 'cultura'. Uma das coisas que me faziam detestar o carnaval era a exibição dos desfiles e apurações das escolas de samba na televisão. Quase todas as emissoras mudavam sua programação vespertina, transmitindo o carnaval e eliminando a sessão de desenhos animados durante a tarde toda. Para uma criança que queria aproveitar os dias em casa assistindo Fantomas, Menino Biônico, Patrulha Estelar e outros, não havia nada pior do que o carnaval.

Acho que a única vantagem dessa época é o fato de ser feriado. De resto não consigo ver nada de proveitoso em salões entupidos de gente pulando feito pipoca e suando como porcos, músicas de fazer inveja a qualquer método de lavagem cerebral, drogas sendo consumidas feito água, o sexo mais banalizado do que nunca, pessoas caindo bêbadas pelas ruas, aumento de crimes, brigas, mortes e acidentes em várias estradas. Mas tudo bem, pois, essa é uma festa do povo, não? O brasileiro, tão sofrido, tem o 'direito' de se divertir. E -– pergunto eu, ignorante -– essa é a única forma de diversão que conhecemos?

Outra coisa que não consigo entender são os milhares e milhares de reais gastos em fantasias, carros alegóricos, etc. Todo mundo vive reclamando da falta de dinheiro o ano inteiro, mas eis que, durante a época festeira, este tão perseguido conforto financeiro surge como que por mágica. O governo, é claro, faz seu papel e também contribui para essa diversão sadia -– pane et circenses. Só aqui, mesmo, é que vemos um morador de favela dizer que desfilar no carnaval é a realização do sonho da sua vida, alegando que todas as suas dificuldades são esquecidas na passarela – passa-se fome, mas a diversão está garantida. Daí concluo, então, que depois de desfilar no carnaval, qualquer pessoa poderia morrer em paz, pois estaria realizada. Ter uma vida digna, educação, saúde, crescimento profissional e colaborar com o desenvolvimento da sociedade são apenas detalhes mínimos se comparados à magia de estar comemorando a tal "festa da carne".

Como se não bastasse nosso próprio povo ficar deslumbrado com essa balbúrdia, nessa época também somos invadidos por turistas oriundos dos mais diversos lugares do planeta. E a mídia brasileira usa e abusa dos estrangeiros para enaltecer essa perda de tempo. Toda hora aparece um alemão, suíço ou japonês dando entrevista e dizendo que essa é a "melhor festa do planeta". Sem dúvida, se o que você procura se encaixa no que descrevi dois parágrafos acima, o carnaval é o lugar ideal para se estar.

Mas esperar o quê de um país como o nosso? Estamos há tanto tempo atolados na lama, que qualquer coisa que se assemelhe à diversão é recebida de braços abertos. E assim passamos os anos, repetindo os mesmos erros do passado e tapando os ouvidos para as poucas vozes revestidas de razão que se levantam, vez ou outra, para tentar nos despertar desse engodo a que nos submetemos por décadas a fio. Essas vozes, entretanto, são cada vez mais raras e dispersas, abafadas pelo som em uníssono de uma multidão ruidosa que clama aos quatro ventos: ala-laô-ô-ô-ô-ô!


quarta-feira, 8 de dezembro de 2004

Welcome to Brazil

Todos os dias somos confrontados por notícias que incentivam a tão falada "luta de classes". Pobres x ricos, patrões x empregados, homens x mulheres, negros x brancos e por aí vai. Basta acessar a página inicial de qualquer website de notícias ou mesmo abrir o seu jornal favorito para se deparar com esse tipo de "desinformação". Algumas vezes de forma subliminar, outras, mais descaradas. O importante é disseminar o ódio.

Os ingênuos caem no "conto do vigário". Acham que a desigualdade do país é culpa do "sistema" e da "burguesia". Se perguntarmos à maioria o porquê desse ódio, quase ninguém saberá responder. Não percebem que o Estado é o maior causador da desigualdade, e não as empresas. De forma grosseira, podemos explicar que a empresa visa o lucro por intermédio da venda de seus produtos. Quanto mais ela vende, melhor. E, para vender mais, são necessários mais compradores, ou seja, pessoas com poder aquisitivo elevado, dispostas a trocar seu dinheiro por algum produto. É interessante às empresas, portanto, que o país tenha uma economia forte e estável, sem pobreza. É aí que reside o erro de muitas pessoas ao acreditarem que os governos são os "salvadores da pátria", enquanto os empresários são inescrupulosos. Não é bem assim. Ter um Estado que monopoliza tudo é regressar aos tempos de feudos e barbáries.

Lógico que existem centenas de empresários mercenários, que justificam certas reclamações - eu mesmo conheci alguns pessoalmente. A esses, nada mais correto do que manifestar nosso repúdio. Fazer uma empresa funcionar requer muito mais do que vender, é necessário beneficiar seus funcionários e fornecer condições apropriadas de trabalho. Mas e quando a ganância e a intenção de lucro deixam o setor privado para se estabelecerem confortavelmente no Estado, criando víboras insaciáveis? Relato abaixo um exemplo.

No final do ano 2000, fui intérprete de um executivo suíço de uma multinacional, fabricante de aceitadores de cédulas e moedas - desses encontrados em máquinas de refrigerantes, salgadinhos e outros. Pude comprovar a qualidade dessas máquinas, que aceitavam notas rasgadas, molhadas e envelhecidas, mas recusavam qualquer tipo de falsificação, além de dar o troco corretamente. Pois bem, agendamos uma reunião com a diretoria do Metrô de São Paulo, a fim de oferecer ao governo o equipamento para ser instalado nas máquinas que vendem bilhetes.

Durante a reunião, Maurice, o suíço, fez o possível e o impossível para demonstrar as vantagens de se utilizar um aparelho altamente seguro tanto para o Metrô quanto para os usuários. A qualidade do produto não deixava dúvidas, e seu preço era muito bom. Porém, enquanto o suíço falava, fui percebendo diversas trocas de olhares entre os diretores do Metrô. Ao término da apresentação, após alguns questionamentos técnicos, cogitou-se a possibilidade de o Metrô utilizar um equipamento melhor em suas máquinas. A negação da diretoria foi unânime.

Em alto e bom som, eu os ouvi dizerem: "Nós não nos importamos se os usuários do metrô passam duas horas na fila ou dois segundos numa máquina, contanto que comprem os bilhetes. Se a máquina não funcionar direito, eles vão para os guichês". E ainda: "Já temos uma empresa que instala esses aceitadores de cédulas. Não é tão bom como o de vocês, mas não estamos preocupados com a qualidade. O metrô é essencial para a população e não serão essas máquinas que atrairão mais usuários".

Traduzir aquilo foi, para mim, muito complicado. A reunião terminou logo após esse diálogo. Minutos depois, no elevador, Maurice, com o rosto perplexo e os olhos cheios de indagações, me perguntou como era possível que representantes do governo não se preocupassem com o bem estar da população. "Se provamos que nosso equipamento é melhor, mais seguro e mais barato, por que insistem em rejeitar a qualidade e utilizar aparelhos inferiores?" - questionou-me o suíço. Maurice podia ser um excelente negociador, mas aparentemente não estava acostumado com as falcatruas brasileiras. Ficou óbvio, para mim, que, naquela mesa de reunião, todos, com exceção de Maurice e eu, estavam recebendo dinheiro para favorecer a outra empresa "inferior", seja ela qual fosse. Diante dos olhos indagadores do suíço, preferi omitir o que me passava pela cabeça e deixei escapar apenas três palavrinhas mágicas: "Welcome to Brazil!"