quinta-feira, 22 de março de 2012

A biografia de Steve Jobs

A biografia de Steve Jobs

Finalmente terminei de ler a biografia de Steve Jobs – sim, sei que já saiu faz tempo, mas as quase 600 páginas precisaram dividir o tempo entre trabalho, freelances e vida pessoal. É leitura que recomento de olhos fechados. Já publiquei aqui antes 10 curiosidades sobre Jobs, e agora concluo com uma análise de sua biografia.

O trabalho feito pelo veterano jornalista Walter Isaacson é impecável. E, uma vez que o livro escapou dos poderes ultracontroladores de Jobs (ele não interferiu na execução), torna-se uma obra imparcial e autêntica. Não é preciso conhecer muito de tecnologia e nem ser um fã da Apple para apreciar o livro. Devo dizer que fiquei triste quando estava nas últimas páginas. Esse é daqueles livros que você torce para não acabar.

Isaacson nos coloca sempre ao lado de Jobs, como se participássemos de cada reunião de negócios, de cada nova ideia e – o mais constante – de cada acesso de raiva e descontrole do fundador da Apple. O livro nos dá o melhor e o pior de Jobs, sem dourar a pílula. Há entrevistas com executivos que se envolveram em colossais bate-bocas com Jobs e que não voltaram a falar com ele.

Uma coisa que me fascina quando vejo um bom trabalho não é saber "como a pessoa fez isso" e sim "como ela raciocinou para chegar a esse resultado". E nesse ponto Isaacson consegue penetrar na mente de Jobs e nos mostrar como ele teve as ideias que levaram à criação do Apple II, do Macintosh, do iPod, iPhone e iPad – aliás, fiquei surpreso ao descobrir que o iPad foi criado antes do iPhone, mas ficou 'engavetado' por um tempo.

Mas Steve Jobs também era um sujeito insuportável. Não tinha o menor tato ao lidar com as pessoas, ofendia todo mundo e não poucas vezes membros da equipe saíam chorando de reuniões com ele – isso quando ele mesmo não chorava nas reuniões para conseguir o que queria. Jobs adotou a filosofia zen-budista para sua vida, mas é curioso notar que ele usou esses conceitos mais em seus produtos do que em si próprio. Isso teve alguns resultados positivos, pois muitos funcionários da Apple disseram que não teriam feito o 'impossível' sem a pressão de Jobs – mas concluíram que teriam o mesmo resultado sem insultos e explosões de ira.

Steve Jobs também não era tão inteligente. Cometeu muitos erros e muitas das funcionalidades brilhantes dos produtos da Apple não vieram dele. Sua teimosia às vezes custava caro, por isso sua equipe aprendeu a se antecipar e várias vezes faziam exatamente o oposto do que ele pedia (sem que ele soubesse). E no fim provavam que ele estava errado.

Quando Jobs foi demitido da própria Apple pelo corpo diretivo, seu ego estava tão insuportavelmente inflado que não consegui sentir pena – foi mais um "bem feito". Mas seu retorno anos depois, evitando a falência e colocando a Apple de volta no mercado é um dos pontos altos do livro. Claro, nesse intervalo ele nos brindou com a Pixar.

Sua obsessão por design e perfeição era tamanha que, no hospital, já muito debilitado pelo câncer, se recusou a colocar a máscara de oxigênio porque era "muito feia", e exigiu que lhe mostrassem cinco modelos diferentes para escolher.

Emocionante também é última visita que Bill Gates faz a Jobs, já com a doença bastante avançada, em sua casa. Foram horas de bate-papo em que ambos admitiram que o sistema de negócios de cada um funcionou bem. Uma espécie de conversa reconciliadora.

Steve Jobs não foi o homem mais importante do mundo e nem era infalível. A visão que algumas pessoas têm dele é errônea. Mas também não era um monstro. Foi um visionário apaixonado pela empresa que criou e pelos produtos que desenvolvia. Ele não aceitava a criação de nada enquanto não se sentisse emocionalmente envolvido com o que estivesse fazendo. Era capaz de jogar fora meses de trabalho e recomeçar do zero apenas por causa da cor de um parafuso imperceptível aos consumidores.

Se aprendi algo com esse livro, foi a coragem de analisar os trabalhos que já fiz e pensar: "Isso é um monte de lixo". E imaginar como um esforço maior e perfeccionista pode ser aplicado em trabalhos futuros.

Todo dia vejo no metrô pessoas lendo a biografia de Steve Jobs. Espero que, mais do que um passatempo, elas possam chegar a essa mesma conclusão que eu cheguei.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Por que não acredito em RH

Trapalhadas do RH
Se existe um departamento nas empresas pelo qual nutro extrema desconfiança, é o de Recursos Humanos. Estou para encontrar um RH que desempenhe um papel que justifique sua existência. Agências especializadas que terceirizam esse serviço são uma coisa, mas departamentos de RH dentro da própria empresa não me convencem.

Quando fiz a entrevista para a vaga de meu emprego anterior, a pessoa que me entrevistava disse: "Apesar de nossa estrutura sólida, a empresa é enxuta e não temos RH. Todos os assuntos relacionados aos funcionários são tratados com a área comercial e financeira". Sugeri que continuassem assim. Se não tinham RH e estão no mercado há vinte anos (com funcionários com dezesseis anos de casa), é prova definitiva da inutilidade desse departamento.

Você dirá que estou sendo injusto. Pode ser. Sei que há departamentos de RH que funcionam bem. Mas esses não conheci. Os que conheci tinham ideias mirabolantes, mas fugiam de propostas que realmente interessavam. De que adianta promover churrascos de integração entre as áreas com salários defasados e sem possibilidades visíveis de crescimento? É preciso ter o básico para pensar nos extras. Muitos profissionais de RH são formados em psicologia, mas é estupidez gastar quatro anos na faculdade apenas para negociar descontos em salões de beleza e manicures – acompanhei muitas dessas "conquistas" do RH. Não que fossem inúteis, mas só atendiam ao público feminino da empresa. Havia também acordos com restaurantes, mas os salões de beleza ganhavam disparado.

Certa feita, numa empresa em que trabalhei, houve uma debandada de profissionais. Pessoas em cargos estratégicos iam aos montes para os concorrentes. A fim de descobrir por que tanta gente deixava a empresa, contrataram uma especialista em RH para achar os problemas e evitar as saídas. Ela ficou dois meses ali, saiu e foi para um concorrente.

Em outra ocasião, querendo instituir um plano de cargos e salários para motivar a equipe, pedi ao RH uma lista de todos os cargos existentes e os requisitos para promoções. Disseram que não tinham essa lista, mas que minha iniciativa era excelente e que eu poderia ir em frente, elaborar a lista e passar para eles – ou seja, pedi ajuda e saí com uma incumbência.

Mas nada se compara a duas contratações que precisei fazer. Estava com equipe reduzida e alta demanda de trabalhos. Era matemático: menos pessoas entregam menos trabalhos. Briguei para contratar reforços. Quando veio a autorização, tratei de começar a busca. Conhecendo o ritmo do RH, eu mesmo divulguei as vagas, selecionei currículos e fiz entrevistas. O RH apenas formalizaria a contratação. Escolhi duas pessoas e comuniquei ao RH que ambos começariam na segunda-feira seguinte.

Naquela segunda passei o dia inteiro em reuniões externas e só voltei no fim da tarde. Olhando as duas mesas vazias, perguntei pelos novos funcionários. Ninguém sabia deles. Liguei para o RH e a resposta foi: "Ah, era para contratá-los"? Não, eu os entrevistei apenas para brincar de Jô Soares. Pedi para chamá-los o mais rápido possível e me disseram que os dois viriam na quarta-feira. Na quarta, apenas um deles apareceu. Mais uma vez chamo o RH, tentando imaginar o que aconteceu. A resposta: "Então, o outro candidato desistiu e esquecemos de avisar. Você vai querer outra pessoa"?

É por isso que departamentos de RH, para mim, caíram em total descrédito. Não posso nem mesmo culpar a incapacidade de uma única pessoa, pois os episódios acima envolveram diferentes pessoas de diferentes setores do RH. O caos é generalizado.

Se você é um proficiente profissional de RH e não concorda comigo, manifeste-se e mostre que existe vida inteligente nesse departamento. Mas se a carapuça serviu, melhor começar assinar seus e-mails como Didi, Dedé, Mussum ou Zacarias.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Vai Juventus

Ano de Copa do Mundo. E também de eleições. Quem criou o famoso ditado popular “"desgraça pouca é bobagem"” devia ter em mente anos como este. Detesto futebol. E detesto política. Ou melhor, de política até gosto, não gosto é de políticos. Mas futebol não tem jeito.


Na verdade, nada tenho contra o esporte em si. O problema é toda essa euforia sem sentido dos brasileiros em torno do futebol, como se cada partida de um campeonato fosse questão de vida ou morte para milhões de acéfalos -– e em alguns casos, acaba sendo mesmo.

Ora, que é o futebol se não vinte e dois jogadores correndo noventa minutos atrás de uma bola que, em última análise, é mais inteligente do que eles? Nunca me interessei por isso, nem quando criança. E não foi por falta de incentivo. Meu pai costumava jogar, todos os domingos, em campos localizados na região do Itaim Bibi. E sempre levava a mim e a meus irmãos com ele. Hoje o nome de alguns desses campos evoca certa nostalgia, sendo que Itororó e Clube do Mé são os mais fortes em minha lembrança. Este último, por sinal, sofrera uma matreira pichação nossa -– se é que podemos chamar assim alguns rabiscos de giz de cera -– e seu nome pintado na parede foi rebatizado para “Clube do Mélda”. Coisas de moleque.

As lembranças que tenho daquelas manhãs de domingo não se relacionam ao futebol, mas a aventuras desbravando trilhas no mato, piqueniques, escalando morros, fugindo de cachorros e assistindo a campeonatos de motocross numa pista ali perto. Com o tempo, troquei aquilo por Transformers, Thundercats e Superamigos na tevê. Os videogames viriam muito tempo depois.

Mas falava de futebol. Mesmo crescendo nesse meio, meu interesse no assunto é nulo. E por isso não entendo esse sentimento exacerbado dos torcedores, que riem, choram, gritam, xingam, brigam e se desesperam a troco de nada. Fora as filas quilométricas para comprar ingressos –- alguns faltam ao trabalho ou pedem demissão para assistir a um jogo. A mídia, cúmplice dessa patacoada, tira proveito e enaltece esse comportamento, passando a sensação de que o jogo é mais importante do que qualquer coisa na vida. Empregassem os imbecis toda essa energia em algo útil, estaríamos entre as grandes potências do planeta.

E acho que é daí que vem meu desgosto pelo futebol. Esse esporte se tornou uma poderosa barreira contra nossa evolução. Eu poderia nutrir maior interesse ou até ir a estádios se o futebol fosse encarado como aquilo que realmente é: apenas um jogo. Para mim, essa história de paixão por times é pura falta de cultura de quem não tem capacidade de se apaixonar por assuntos mais nobres. Nas Copas do Mundo, sempre torço contra o Brasil, para que perca logo e impeça o agito de bandeiras e sopro de cornetas o quanto antes.

Outro problema que o futebol cria para mim é a falta de assunto. Ao almoçar com colegas, é fácil falar de tecnologia, filmes, livros, viagens, etc. Mas quando caem no futebol, só resta me calar. Sequer sei a diferença de um zagueiro para um meio-de-campo, então não consigo manter conversa. Mas para isso encontrei a solução. Tenho prestado atenção nas conversas alheias sobre o tema e acabo decorando uma ou outra frase de impacto que denote forte opinião sobre o assunto. Pronto, basta encaixar essas frases no momento certo e obtenho uma conversa animada. Eu não faço a mínima ideia do que estou falando, mas acredito que meus interlocutores também não.

Dia desses, entretanto, acordei diferente. Não sei bem por que razão, decidi que eu precisava de um time para torcer. Mas não queria nenhum desses grandes nomes. Então lembrei que meu bairro tem seu próprio time - o Juventus - e até um estádio homônimo. Fui atrás de maiores informações e descobri que o time é péssimo, não ganha jogo algum e vive nas divisões mais baixas. Ora, pensei, é esse mesmo! Se quiser torcer pra algum time, ainda que por brincadeira, que seja um time ruim, sem destaque e que não cause decepções, uma vez que a expectativa é a de derrota. Decepcionado ficarei se ele passar a ganhar os jogos. Aí serei obrigado a abandoná-lo.

Hoje, se me perguntam para qual time eu torço, respondo com um grande sorriso: Juventus! As pessoas me olham de lado, curiosas, como se eu tivesse dito que acabei de chegar de Marte. O que me deixa a sensação de que estou no caminho certo.

Vai Juventus!

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Milton Friedman e a ganância

Um dos maiores pensadores e economistas do século XX e um dos mais influentes teóricos do liberalismo econômico e defensor do capitalismo laissez-faire e do livre mercado, Milton Friedman, em inebriante entrevista sobre a ganância:

Milton Friedman e a ganância



A explicação de Friedman chega a ser tão clara, tão óbvia, que espanta o fato de ele ter que colocá-la em palavras para o entrevistador.

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

A Fábula da Galinha

A Fábula da Galinha
Esta é uma fábula muito popular nos países de língua inglesa, onde é conhecida como The Little Red Hen, que assim como a fábula A Formiga e a Cigarra, visa ensinar o valor do trabalho e da previdência às crianças. Coisas que os esquerdistas são incapazes de entender. Existem muitas versões diferentes desta fábula, mas aqui está uma das que eu gosto mais. Vamos à ela:

A Fábula da Galinha


Era uma vez uma galinha ruiva que morava numa fazenda com seus três amigos: O cão preguiçoso, o gato dorminhoco e o pato barulhento. Um dia ela encontrou alguns grãos de trigo no quintal e decidiu chamar seus amigos para ajudar a plantá-los.

"Quem me ajuda a plantar este trigo?" -- perguntou a galinha.

“Eu não”  --  latiu o cão preguiçoso.
“Nem eu” -- miou o gato dorminhoco.
“Tô fora!” -- grasnou o pato barulhento.

"Então eu planto sozinha" -- respondeu a galinha. E assim ela fez.

Logo o trigo começou a brotar e quando a época da colheita estava próxima, ela voltou a chamar seus amigos para ajudá-la.

“Quem vai me ajudar a colher o trigo?" -- perguntou a galinha.

“Eu não, isso cansa --” latiu o cão preguiçoso.
“Nem eu, vou dormir” -- miou o gato dorminhoco.
“Eu não ganho nada com isso. Tô fora!” -- grasnou o pato barulhento.

"Então eu colho sozinha" -- respondeu a galinha. E assim ela fez.

Sabendo que seus amigos não iriam colaborar, a galinha levou sozinha o trigo para o moinho e o transformou em farinha para preparar o pão, mas mesmo assim ela perguntou: "Quem vai me ajudar a preparar o pão?"

“Eu não, se alguém souber que eu trabalhei perco a bolsa-ração” -- latiu o cão preguiçoso.
“Nem eu, recebo pensão e seguro desemprego, vou dormir” -- miou o gato dorminhoco.
“Você não vai me pagar hora extra! Tô fora!” -- grasnou o pato barulhento.

"Então eu preparo sozinha." -- respondeu a galinha. E assim ela fez.

Quando os pães ficaram prontos os outros animais vieram pedir um pedaço para a galinha ruiva, que respondeu:

"Não, eu fiz os pães sozinha e sozinha vou comê-los." E assim ela fez.
Assim termina a fábula original, a galinha come os pães e os outros animais vagabundos ficam sem nada, mas aqui no Brasil o final seria bem diferente:

Após se negar a dividir os pães, a galinha começou a ser insultada pelos outros animais.

“Maldita galinha burguesa! Exijo direitos iguais!” -- latiu o cão preguiçoso.
“Que falta de solidariedade! Sua egoísta insensível! Não sente pena dos que têm fome?” -- miou o gato dorminhoco.
“Gananciosa! Capitalista! Exploradora! Eu vou tomar seus pães à força!” -- grasnou o pato barulhento.

Com a confusão a galinha resolveu chamar a polícia e, junto com a polícia, veio um burocrata do governo dizendo que ela era obrigada a dividir os pães com o governo e com os animais que nunca a ajudaram em nada.

"Mas eu fiz tudo sozinha! Plantei o trigo, colhi, fiz a farinha, assei os pães e ninguém me ajudou em nada!" -- reclamou a galinha.

"Sim, mas você fez tudo isso dentro desta fazenda e aqui não somos capitalistas, todos devem dividir seus lucros com os demais para manutenção da paz. Isso é justiça social" -- disse o burocrata.

Depois do pequeno discurso do burocrata os demais animais comemoravam enquanto a polícia confiscava os pães da galinha ruiva:

"Bem feito! Ficou sem nada! Se ferrou galinha elitista!" -- gritavam histericamente.

De posse dos pães o governo ficou com a maior parte, deixando apenas algumas fatias duras para os animais vagabundos, que comemoraram a expropriação dos pães da galinha, aplaudindo a adoção do sistema de justiça social que lhes garantia migalhas.

Entretanto, depois de algum tempo eles começaram a se questionar porque nunca mais a galinha voltou a fazer pão...

Fonte: Mídia Livre

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

A diferença entre emprego e trabalho

Um pequeno conto para se refletir:

A diferença entre emprego e trabalho

Um empresário americano, do ramo de construções, passeava por uma estrada, na Rússia comunista, quando avistou várias pessoas no que parecia ser uma obra. O empresário parou, desceu do carro e observou a cena: vários homens, munidos de pás, trabalhavam intensamente numa escavação. O empresário dirigiu-se ao homem que julgou ser o mestre de obras e perguntou:

– O que vocês estão construindo?
– Estamos escavando um túnel, senhor. O governo quer fazer um grande túnel nessa região.
– E para que tanto trabalho braçal? Eu posso lhes vender duas escavadeiras que fariam todo o trabalho em muito menos tempo e por um preço bem menor do que a mão-de-obra atual.
– De jeito nenhum! E o que aconteceria com o emprego de todos esses homens? Preferimos manter do jeito que está.
– Ora, eu achei que o objetivo de vocês era construir um túnel, e não justificar o emprego de tanta gente. Se esse é o caso, melhor lhes tirarem as pás e lhes darem colheres.


sábado, 20 de janeiro de 2007

Turismo intelectual: Minha conversa com Janer Cristaldo

Janer Cristaldo

Cansado de ler obras de ficção e buscando por literaturas mais contemporâneas, tomei conhecimento, no final de 2004, das crônicas do escritor e jornalista Janer Cristaldo. Dono de uma inteligência e erudição únicas, Janer discorre de forma divertida em seus textos sobre variados assuntos, comumente focando-se em política e suas variações. Até então eu detestava política. Só depois que passei a ler seus artigos é que entendi melhor o assunto e comecei a interpretar notícias, em vez de engoli-las, e vi que há muito a ser lido nas entrelinhas.

Cristaldo foi, por assim dizer, o pivô para que eu reavaliasse minha maneira de escrever (e pensar). Antes, apenas despejava aqui pensamentos aleatórios. Só quando me propus a escrever textos mais longos é que percebi a influência de Janer e de outros articulistas semelhantes. Influência, bem entendido, não significa imitar, mesmo porque há assuntos abordados por ele dos quais divirjo completamente.

Em meados de 2005 enviei-lhe um e-mail comentando uma de suas crônicas. Nem esperava resposta, mas ela veio. Começamos, então, a trocar alguns e-mails - bem poucos, na verdade, pois não queria incomodar.

Durante a Bienal do Livro, em 2006, Cristaldo publicou um artigo mencionando meu blog, o que aumentou bastante o número de visitantes. Ao agradecer-lhe a citação, veio o convite: "precisamos confraternizar um dia desses". Infelizmente nunca me sobrava tempo e o encontro só veio a acontecer na última semana de 2006.

Marcamos, então, em um bar de Higienópolis. Chovia naquele fim de tarde, mas a temperatura estava agradável. Escolhemos uma das mesas na calçada para nos acomodar e lá ficamos. Foram quase quatro horas de uma conversa como há muito eu não tinha.

Janer Cristaldo é o tipo de pessoa que possui uma enorme bagagem de vida, disposto a compartilhá-la com quem se sentar à mesa para ouvi-lo. Conversamos de tudo um pouco, mas eu estava interessado mesmo em suas experiências de viagens. Tenho uma fascinação pela Europa e praticamente tudo o que diz respeito ao Velho Mundo, e Janer morara um tempo em Estocolmo, além de viajar freqüentemente para o continente europeu.

Conhecer outro país através dos olhos de alguém que sabe descrever seus ares, odores e cores é, talvez, mais interessante do que realmente estar nesse país. Em certo ponto da conversa, Cristaldo me perguntou se já estivera na Europa. Diante da minha negativa, disse ele: - Invejo-te! - Como assim? - perguntei, e a resposta: "Quando partires para lá, tu ainda terás a emoção e ansiedade da viagem, de chegar a lugares novos e vislumbrar paisagens e pessoas diferentes". E continua: "Essa emoção eu a perdi, hoje conheço Paris melhor do que São Paulo, e ir para lá já não me desperta a sensação de novidade". De fato, um ponto de vista interessante.

"Qual o país mais belo da Europa?", perguntei. Sem pensar, respondeu: "Noruega, sem dúvida! Os fiordes oferecem paisagens inigualáveis com gelo, montanhas e mar unindo-se em vistas espetaculares". E o melhor para se viver? Espanha.

As descrições dos caminhos percorridos por Cristaldo só aumentaram minha vontade de conhecer todos aqueles lugares. Perambular pelas ruas de Viena, saborear os famosos pães franceses com patês e vinhos, respirar os ares do berço da arte. Conhecer a Europa é uma das minhas metas depois de casar. Janer prontificou-se a dar-me dicas de roteiro e hospedagem.

Para Janer, só se conhece um país freqüentando seus bares. "Você não conhece um país visitando museus, precisa ir a bares e restaurantes para ter contato real com as pessoas". Cristaldo também gosta de experimentar as culinárias exóticas de cada país, mencionando um famoso peixe enlatado da Noruega que, segundo ele, tem cheiro e gosto de coisa podre, mas, "se uma nação inteira gosta, é porque deve ser bom".

De repente, uma senhora, conhecida de Janer, juntou-se a nós para pedir conselhos: - Ai, Janer! - dizia ela - estou com medo, o que vai acontecer agora que Lula foi reeleito? - Nada - respondeu ele - deviam se preocupar na época em que ele foi eleito, agora que lhe deram mais quatro anos, que ele fique por lá até o fim. Mais alguns minutos de papo e a senhora nos deixou, já menos apreensiva. Falamos bastante de política, mas eu me concentrava na Europa.

Apreciador de boa música, Cristaldo citou preferências como Mozart e disse detestar Wagner. Mencionou alguns intérpretes da música francesa, italiana e norueguesa. Também mostrou-se fã da música "mariachi" e da cantora Inezita Barroso (!). Rock ou música americana? Nem pensar.

Aproveitei para perguntar-lhe se conhecia os Estados Unidos. "Sim", respondeu, "para não dizer que sou preconceituoso, estive lá uma vez. Não gostei. Os prédios altos da 5ª Avenida causam um vento encanado muito forte"!

E o misterioso Oriente? Também não. "Se você quiser ver as pirâmides do Egito", disse, "são bonitas e valem o contato com a História, mas o Cairo é horrível! Quente e sujo! Prefiro o conforto dos hotéis europeus". Japão, China e afins também nunca despertaram interesse em Janer, mas uma cidadezinha perto do Pólo Norte chamou sua atenção.

"Gostaria de conhecer o bar dessa cidade, que possui 1500 habitantes e 3000 ursos! As pessoas precisam andar armadas o dia todo caso surja um urso intrometido". Perguntei-lhe o que tinha para se fazer num lugar desses: "Nada! Não há nada para fazer, e é exatamente por isso que ainda não fui para lá, pois nunca viajo sozinho e é difícil convencer uma companhia a partilhar tal aventura".

A conversa desenrolou-se por outros temas: literatura, arte, religião, comportamento. Chegamos ao ponto de esgotar certos assuntos e ficarmos apenas parados, bebendo e olhando o movimento na rua.

Este texto renderia muitos parágrafos mais se eu fosse comentar detalhadamente essas quatro horas de conversa. Fiz uma verdadeira viagem intelectual através das descrições e opiniões de Janer. Um contato enriquecedor, sem dúvida.

Ao levantarmos para ir embora, notei um belo restaurante do outro lado da rua. "É muito bom", afirmou Cristaldo, "aos sábados servem uma feijoada excelente aí". Eu disse que viria experimentar um dia desses, e ele me pediu que marcasse a data e, se quisesse companhia, era só chamar.

Sem dúvida, caro Janer, sem dúvida. E desta vez, tentarei marcar para antes do fim do ano.

Atualização 27/10/2014


Infelizmente este reencontro nunca aconteceu. Acabei sempre adiando a outra visita ao Janer e, com o tempo, ele adoeceu, o que tornou tudo ainda mais difícil. Chegamos a trocar mais alguns e-mails nesse meio tempo. Mas no dia 27/10/2014, o Brasil perdia uma de suas maiores mentes lúcidas e inteligentes e, na minha opinião, o maior cronista que este país já teve.

quinta-feira, 30 de novembro de 2006

Adeus ao bom velhinho

Em 1931, a Coca-Cola solicitou ao ilustrador Haddon Sundblom que desenvolvesse a imagem de um Papai Noel "humano" - antes do trabalho de Sundblom, as pessoas imaginavam o Papai Noel (ou São Nicolau) como uma espécie de gnomo ou leprechau. O pedido da Coca-Cola baseava-se em uma resposta positiva do público a um anúncio que mostrava o primeiro conceito desse personagem que seria absorvido pelo público de todo o mundo como uma tradição natalina.

Para criar o Papai Noel, Sundblom buscou inspiração no poema de Clement Moore, de 1822, intitulado Uma Visita de São Nicolau. A descrição que Moore fez do fabricante de brinquedos como um "velho rechonchudo e bem humorado" levou à criação da imagem do Papai Noel amigável e humano que conhecemos hoje.

Sundblom usou seu amigo e vizinho, Lou Prentice, um vendedor aposentado, como modelo para as ilustrações. Após a morte de Prentice, em 1940, Sundblom passou a usar a si mesmo como modelo e, por 35 anos, pintou retratos do Papai Noel para os anúncios da Coca-Cola. Haddon Sundblom morreu em 1976.

A imagem do Papai Noel de Sundblom tornou-se uma poderosíssima marca na tradição do natal e ganhou vida própria, sendo usada como decoração e até protagonizando diversos filmes hollywoodianos. Não fosse um amigo me contar essa história anos atrás, fazendo-me pesquisar mais a fundo as origens do bom velhinho de roupas vermelhas, eu jamais faria a associação com a Coca-Cola.

Então leio nesta semana a notícia de que o Papai Noel está sendo banido da Alemanha e da Áustria, acusado de ser invenção da Coca-Cola e de destruir o verdadeiro espírito de natal. Existe por lá um movimento impedindo o uso da imagem do bom velhinho entre os comerciantes que quiserem vender suas mercadorias no natal.

"Nós somos contra as coisas materiais, a ânsia de comprar, e esse homem de barba branca e de vermelho destruiu o real espírito do natal", afirma Bettina Schade, uma das organizadoras do movimento. Que Papai Noel jamais teve ligação alguma com o natal, compreende-se. Mas acusá-lo de fomentar o materialismo e a ânsia de comprar simplesmente porque sua imagem foi concebida pela Coca-Cola (há 75 anos!), é ridículo. Aliás, o conceito do Papai Noel já existia há muito mais tempo e é originário da própria Alemanha. A senhora Bettina deveria lutar, então, contra todo o comércio no natal - se usar a imagem do Noel, não pode vender; mas se não usar, pode? Que se proíba também o poema de Clement Moore. Ou, melhor ainda, por que ela não se movimenta para impedir o consumo de Coca-Cola no natal?

Até onde consigo lembrar, sempre ouvi dizer que o natal estava "comercial demais", portanto, afirmar hoje que o Papai Noel destruiu o espírito do natal não faz muito sentido. Aliás, arrisco dizer que esse "espírito" só existe no inconsciente coletivo das pessoas, porque ninguém sabe dizer como seria um natal "não comercial".

Existe, claro, a questão religiosa, mas nessa parte prefiro não entrar. Há quem comemore o natal e quem não comemore, assim, que cada um faça o que lhe parecer melhor. Não custa dizer, entretanto, que, dado o verdadeiro significado do natal, ele poderia ser comemorado todos os dias do ano, dentro do coração das pessoas, sem a necessidade de uma data específica para isso. Bolas, árvores, neve artificial, luzes coloridas e todo o resto são nada mais do que simples objetos.

Eu poderia até dar razão à Bettina Schade, se seus argumentos fossem outros além do patogênico combate ao consumismo, usando a Coca-Cola como desculpa para disparar suas farpas. Se nessa época do ano as vendas podem melhorar e ajudar a vida de patrões e empregados, por que lutar contra? Que vendam mais e mais! Não será a presença ou ausência do Papai Noel que influenciará as pessoas a comprarem.

Confesso que nunca acreditei em Papai Noel. Sempre soube que aqueles senhores de vermelho que eu via em shoppings eram apenas velhinhos contratados para alegrar as crianças e atrair os pais. É dessa forma que pretendo criar meus filhos, instruindo-os desde os tenros anos a identificar um engodo. Vocês podem dizer que a criança precisa de fantasias para desenvolver a imaginação. Concordo, mas fantasias não se restringem a Papai Noel. As fábulas de Ésopo, por exemplo, são riquíssimas em conteúdo e nem um pouco enfadonhas.

Por fim, criação da Coca-Cola ou não, Papai Noel é apenas um personagem fictício. O que não é o caso do Coelhinho da Páscoa. Esse sim existe! E ninguém me convencerá do contrário.

quarta-feira, 4 de maio de 2005

Um Dia de Fúria

Se existe um dia da semana que eu detesto, esse dia é quarta-feira. As quartas parecem debochar de mim, avisando que o último fim de semana já passou há dois dias e que ainda faltam mais dois para o próximo. Fora isso, quarta-feira também é o rodízio do meu carro, o que me força a acordar ainda mais cedo para ir trabalhar de ônibus.

Entretanto, quis o destino que justamente nessa última quarta (04/05/2005) eu presenciasse uma das cenas mais surreais que já vi na vida. E justamente por ter ido trabalhar de ônibus. Eram aproximadamente 08h40 quando desci no meu ponto e peguei o caminho em direção à agência. A manhã estava fria, mas havia sol, o que tornava a caminhada agradável. Andava despreocupado, olhando para o chão. Então, faltando exatamente um quarteirão para chegar ao serviço, enquanto atravessava um cruzamento, um som bem conhecido chamou minha atenção: pneus cantando no asfalto.

Como que desperto de um transe, ergui a cabeça a tempo de ver dois carros, uma Mercedes e um Gol, rodopiando simultaneamente na pista, próximo ao farol onde eu me encontrava. Não sei explicar como isso começou, parece que a Mercedes fechou o Gol pela direita, os dois deram um pequeno "encostão" e isso desencadeou o balé de mais de duas toneladas de metal. Num esforço tremendo, o motorista do Gol conseguiu controlar o veículo e parou exatamente de frente para uma pequena clínica de entrada recuada. Aproveitando o momento, o Gol entrou e estacionou na clínica.

Já a Mercedes não teve tanta sorte. Rodou duas vezes, tentou se estabilizar, mas não conseguiu. Mesmo freando, ele derrapou no lado oposto à clínica, batendo de frente na lateral de um outro Gol, estacionado perto da esquina do cruzamento, cerca de cinco metros à minha frente. No mesmo instante vi os pneus direitos desse Gol serem prensados contra a calçada, além de imaginar o estrago no lado do impacto. Pude ver, também, que o motorista da Mercedes era um senhor de idade, já com seus setenta anos.

Foi então que, sem mais nem menos, o motorista da Mercedes, aproveitando que o trânsito estava parado – o que lhe concedia espaço suficiente – engatou a ré, saiu de "dentro" do Gol estacionado e, fazendo uma curva surpreendentemente rápida, acelerou como nunca e mirou o Gol que havia parado na clínica. O motorista do Gol, que estava quase saindo do carro, não teve outra alternativa a não ser entrar novamente no veículo. O impacto foi fulminante. A Mercedes jogou o Gol para dentro do estacionamento da clínica, fazendo-o atravessar uma grade de ferro, arrancar uma base de concreto e derrubar o corrimão de metal que ficava na escada da entrada. O Gol só não caiu em uma vala que havia após a grade porque ficou prensado entre uma árvore e a Mercedes, mas isso não o impediu de ficar na perpendicular.

Não contente com sua performance, o velhinho da Mercedes saiu do carro, dirigiu-se ao Gol esmagado e, apontando freneticamente o dedo para o outro motorista, gritava algo como "Tá vendo? Você não queria bater? Pois então, agora bateu!". Nesse momento o local já estava repleto de curiosos. O motorista do Gol teve que sair pela janela do carro, visto que a porta estava inutilizada. Percebi que era um homem forte e sua estatura era quase o dobro da do velhinho. Mesmo assim, ele trazia no rosto uma expressão que mesclava pânico e incompreensão, e sequer respondia às acusações do inflamado ancião. Terminando de despejar todo o vocabulário de palavrões existente, o motorista da Mercedes simplesmente virou-se, saiu andando e foi trabalhar a pé, deixando o carro ligado.

Recuperado do espetáculo, também fui trabalhar. Chegando na agência, relatei o ocorrido e eis que surge a ideia: voltar ao local do acidente, munido de uma câmera, e registrar os fatos. Assim fiz, acompanhado de mais um colega de serviço. Nesse momento já haviam chegado viaturas da polícia e o dono do Gol prestava depoimento. Pelo que pude escutar, os dois carros já vinham se "estranhando" desde outras ruas, resultado de um retrovisor quebrado. Entre as dezenas de curiosos, também ouvi que o motorista da Mercedes era dono de uma clínica ali perto e foram chamá-lo. Meu colega ainda comentou: "Depois dessa, espero que ele não seja dono de uma clínica psiquiátrica!".

Finalmente o velho chegou, aparentando uma serenidade de monge tibetano. Solícito, apresentou seus documentos aos policiais e começou a conversar. Nesse momento consegui bater as fotos que desejava e fomos embora, o espetáculo havia terminado. O que impressionou foi a resistência da Mercedes, a qual sofreu dois impactos frontais e sofreu apenas amassados leves no capô, enquanto o Gol não teve a mesma felicidade.

Isso me fez pensar bastante. Quase nunca me envolvo em discussões de trânsito, mas, depois disso, passarei a tomar um cuidado redobrado. Nunca se sabe quem está atrás do volante. Um simpático velhinho pode ser tornar, de uma hora para outra, uma máquina assassina. Apesar de tudo, deve-se considerar a iniciativa do velho. Em poucos segundos destruiu dois carros mais a entrada de uma clínica apenas para satisfazer seu ódio. Ele fez o que muitos de nós gostaríamos de fazer, mas nunca tivemos coragem (ou dinheiro) o suficiente.


Finalizando, para provar meu relato, abaixo estão os links para as fotos que tirei. Na segunda e terceira imagem é possível ver o dono da Mercedes dentro do carro, entregando os documentos aos policiais:









quarta-feira, 2 de fevereiro de 2005

Por que detesto o carnaval


Por que detesto o carnaval

E estamos a poucos dias do tão aguardado carnaval. Aguardado, devo ressaltar, não por mim, mas pelos milhares de 'foliões' brasileiros que esperam ansiosamente para 'cair na gandaia'. Particularmente detesto o carnaval, não suporto samba ou qualquer coisa relacionada a isso. E não é de agora. Desde criança nunca tive muita afinidade com essa parte da nossa 'cultura'. Uma das coisas que me faziam detestar o carnaval era a exibição dos desfiles e apurações das escolas de samba na televisão. Quase todas as emissoras mudavam sua programação vespertina, transmitindo o carnaval e eliminando a sessão de desenhos animados durante a tarde toda. Para uma criança que queria aproveitar os dias em casa assistindo Fantomas, Menino Biônico, Patrulha Estelar e outros, não havia nada pior do que o carnaval.

Acho que a única vantagem dessa época é o fato de ser feriado. De resto não consigo ver nada de proveitoso em salões entupidos de gente pulando feito pipoca e suando como porcos, músicas de fazer inveja a qualquer método de lavagem cerebral, drogas sendo consumidas feito água, o sexo mais banalizado do que nunca, pessoas caindo bêbadas pelas ruas, aumento de crimes, brigas, mortes e acidentes em várias estradas. Mas tudo bem, pois, essa é uma festa do povo, não? O brasileiro, tão sofrido, tem o 'direito' de se divertir. E -– pergunto eu, ignorante -– essa é a única forma de diversão que conhecemos?

Outra coisa que não consigo entender são os milhares e milhares de reais gastos em fantasias, carros alegóricos, etc. Todo mundo vive reclamando da falta de dinheiro o ano inteiro, mas eis que, durante a época festeira, este tão perseguido conforto financeiro surge como que por mágica. O governo, é claro, faz seu papel e também contribui para essa diversão sadia -– pane et circenses. Só aqui, mesmo, é que vemos um morador de favela dizer que desfilar no carnaval é a realização do sonho da sua vida, alegando que todas as suas dificuldades são esquecidas na passarela – passa-se fome, mas a diversão está garantida. Daí concluo, então, que depois de desfilar no carnaval, qualquer pessoa poderia morrer em paz, pois estaria realizada. Ter uma vida digna, educação, saúde, crescimento profissional e colaborar com o desenvolvimento da sociedade são apenas detalhes mínimos se comparados à magia de estar comemorando a tal "festa da carne".

Como se não bastasse nosso próprio povo ficar deslumbrado com essa balbúrdia, nessa época também somos invadidos por turistas oriundos dos mais diversos lugares do planeta. E a mídia brasileira usa e abusa dos estrangeiros para enaltecer essa perda de tempo. Toda hora aparece um alemão, suíço ou japonês dando entrevista e dizendo que essa é a "melhor festa do planeta". Sem dúvida, se o que você procura se encaixa no que descrevi dois parágrafos acima, o carnaval é o lugar ideal para se estar.

Mas esperar o quê de um país como o nosso? Estamos há tanto tempo atolados na lama, que qualquer coisa que se assemelhe à diversão é recebida de braços abertos. E assim passamos os anos, repetindo os mesmos erros do passado e tapando os ouvidos para as poucas vozes revestidas de razão que se levantam, vez ou outra, para tentar nos despertar desse engodo a que nos submetemos por décadas a fio. Essas vozes, entretanto, são cada vez mais raras e dispersas, abafadas pelo som em uníssono de uma multidão ruidosa que clama aos quatro ventos: ala-laô-ô-ô-ô-ô!


quarta-feira, 8 de dezembro de 2004

Welcome to Brazil

Todos os dias somos confrontados por notícias que incentivam a tão falada "luta de classes". Pobres x ricos, patrões x empregados, homens x mulheres, negros x brancos e por aí vai. Basta acessar a página inicial de qualquer website de notícias ou mesmo abrir o seu jornal favorito para se deparar com esse tipo de "desinformação". Algumas vezes de forma subliminar, outras, mais descaradas. O importante é disseminar o ódio.

Os ingênuos caem no "conto do vigário". Acham que a desigualdade do país é culpa do "sistema" e da "burguesia". Se perguntarmos à maioria o porquê desse ódio, quase ninguém saberá responder. Não percebem que o Estado é o maior causador da desigualdade, e não as empresas. De forma grosseira, podemos explicar que a empresa visa o lucro por intermédio da venda de seus produtos. Quanto mais ela vende, melhor. E, para vender mais, são necessários mais compradores, ou seja, pessoas com poder aquisitivo elevado, dispostas a trocar seu dinheiro por algum produto. É interessante às empresas, portanto, que o país tenha uma economia forte e estável, sem pobreza. É aí que reside o erro de muitas pessoas ao acreditarem que os governos são os "salvadores da pátria", enquanto os empresários são inescrupulosos. Não é bem assim. Ter um Estado que monopoliza tudo é regressar aos tempos de feudos e barbáries.

Lógico que existem centenas de empresários mercenários, que justificam certas reclamações - eu mesmo conheci alguns pessoalmente. A esses, nada mais correto do que manifestar nosso repúdio. Fazer uma empresa funcionar requer muito mais do que vender, é necessário beneficiar seus funcionários e fornecer condições apropriadas de trabalho. Mas e quando a ganância e a intenção de lucro deixam o setor privado para se estabelecerem confortavelmente no Estado, criando víboras insaciáveis? Relato abaixo um exemplo.

No final do ano 2000, fui intérprete de um executivo suíço de uma multinacional, fabricante de aceitadores de cédulas e moedas - desses encontrados em máquinas de refrigerantes, salgadinhos e outros. Pude comprovar a qualidade dessas máquinas, que aceitavam notas rasgadas, molhadas e envelhecidas, mas recusavam qualquer tipo de falsificação, além de dar o troco corretamente. Pois bem, agendamos uma reunião com a diretoria do Metrô de São Paulo, a fim de oferecer ao governo o equipamento para ser instalado nas máquinas que vendem bilhetes.

Durante a reunião, Maurice, o suíço, fez o possível e o impossível para demonstrar as vantagens de se utilizar um aparelho altamente seguro tanto para o Metrô quanto para os usuários. A qualidade do produto não deixava dúvidas, e seu preço era muito bom. Porém, enquanto o suíço falava, fui percebendo diversas trocas de olhares entre os diretores do Metrô. Ao término da apresentação, após alguns questionamentos técnicos, cogitou-se a possibilidade de o Metrô utilizar um equipamento melhor em suas máquinas. A negação da diretoria foi unânime.

Em alto e bom som, eu os ouvi dizerem: "Nós não nos importamos se os usuários do metrô passam duas horas na fila ou dois segundos numa máquina, contanto que comprem os bilhetes. Se a máquina não funcionar direito, eles vão para os guichês". E ainda: "Já temos uma empresa que instala esses aceitadores de cédulas. Não é tão bom como o de vocês, mas não estamos preocupados com a qualidade. O metrô é essencial para a população e não serão essas máquinas que atrairão mais usuários".

Traduzir aquilo foi, para mim, muito complicado. A reunião terminou logo após esse diálogo. Minutos depois, no elevador, Maurice, com o rosto perplexo e os olhos cheios de indagações, me perguntou como era possível que representantes do governo não se preocupassem com o bem estar da população. "Se provamos que nosso equipamento é melhor, mais seguro e mais barato, por que insistem em rejeitar a qualidade e utilizar aparelhos inferiores?" - questionou-me o suíço. Maurice podia ser um excelente negociador, mas aparentemente não estava acostumado com as falcatruas brasileiras. Ficou óbvio, para mim, que, naquela mesa de reunião, todos, com exceção de Maurice e eu, estavam recebendo dinheiro para favorecer a outra empresa "inferior", seja ela qual fosse. Diante dos olhos indagadores do suíço, preferi omitir o que me passava pela cabeça e deixei escapar apenas três palavrinhas mágicas: "Welcome to Brazil!"