quinta-feira, 12 de maio de 2016

Não foi o Fabinho!

Por anos isso me acompanhou e me consumiu por dentro. Sempre que eu tentava esquecer, o fato voltava à mente e me tirava a paz. Você não faz ideia do que é ser o único a saber de algo e guardar para si por tanto tempo.

Como já não tenho paz e não desejo levar isso para o túmulo, finalmente decidi desabafar. Relato a seguir os fatos tais como realmente aconteceram:

A sala estava cheia. Diversas mesas dispostas aleatoriamente reuniam grupos de quatro ou cinco de nós ao seu redor. Cada grupo envolvido em suas atividades, e cada indivíduo concentrado nos seus afazeres.

Apesar disso, havia conversas e risadas – muitas vezes para aliviar a tensão do que estávamos fazendo. Para muitos ali, era a primeira vez que se deparavam com algumas daquelas tarefas e instrumentos.

Eu mesmo estava nervoso, pois a coisa toda não era fácil e exigia muita coordenação. A simples ideia de não conseguir terminar nos apavorava. Nós ouvíramos histórias do que acontecera a quem não concluía o que lhes fora ordenado, e eram terrivelmente assustadoras.

Talvez esse medo tenha influenciado meus atos.

Lá estávamos nós, reunidos e concentrados no trabalho quando, em uma impensada atitude –para mostrar aos outros que eu era ousado e destemido – ergui a tesoura até a altura da minha testa. Os olhos assombrados de toda a mesa se voltaram para mim. Sentindo a adrenalina tomar conta do meu corpo e sabendo que, depois disso, minha reputação cruzaria oceanos, não titubeei.

Puxei uma mecha dos meus cabelos (naquela época a franja quase me cobria os olhos) e, com um movimento seco e certeiro, cortei-a com a tesoura, jogando-a no chão. Os colegas ao redor não acreditaram no que viram. Naquele momento, eu estava acima de todos eles. Eu era o melhor. O mais admirado. Eu reinava absoluto e nada poderia me deter. Nada!

 A não ser, é claro, o infortúnio. Minha reputação teria cruzado oceanos e hoje eu estaria em alguma cobertura em Dubai, dando festas memoráveis e sendo idolatrado em todo o mundo. Mas quis o destino que o caminho levasse a um desfecho diferente, ali mesmo, naquela mesma tarde.
Foi quando ela surgiu. Ela sempre passava por ali, mas nunca lhe déramos atenção. Ela era quase invisível para nós. Mas, naquela tarde, ela parou ao meu lado. Foi quando o meu reinado desmoronou.

A tia da limpeza, que varria a sala, abaixou e pegou a mecha do meu cabelo. Olhando para nós, ela perguntou: – Quem fez isso? Silêncio. Ela insistiu. Ninguém abriu a boca. Então ela olhou para nós, um por um, até que seus olhos pararam em mim. Eu usava um cabelo ‘tigelinha’ e não era difícil perceber que algo faltava na minha testa. Ela esticou o braço e encaixou a mecha de cabelo na falha da minha testa, tal qual uma peça de quebra-cabeça.

No mesmo instante ela me pegou pelo braço e me levou à sala da diretora. Um pavor inominável se apoderou do meu corpo. Eu não conseguia pensar, não conseguia falar e nem respirar. As lágrimas já brotavam dos meus olhos. O terror do desconhecido fazia meu coração parar.

Não ouvi direito o que a faxineira e a diretora diziam. Algo como “poderiam ter se machucado” ou coisa assim. A diretora olhou para mim e perguntou: – Quem fez isso?

Então eu, que minutos antes transbordava autoconfiança e poder, derreti-me em um pedaço de geleia e, entre soluços, covardemente exclamei: – Foi o Fabinho!!!

E chamaram o Fabinho, que estava sentado ao meu lado. E o Fabinho, aos prantos, negava veementemente ter feito aquilo. O Fabinho levou uma bronca. Ele não ajoelhou no milho, não ficou trancado no quarto escuro onde habitava o monstro e nem foi tirado para sempre do seio de sua família, como nas histórias que ouvíramos. Mas levou uma bronca. E eu também. Mas a culpa ficou com Fabinho.

Voltamos à mesa, para continuar nosso trabalho da Pré-Escola, de colagem e pintura. Mas as coisas haviam mudado. Eu não era mais o maioral. E o Fabinho chorava, sendo consolado pelos outros colegas. Eu me senti um verme desprezível, mas, por medo e vergonha, jamais contei a verdade. Até hoje.

Hoje expurgo esse sentimento de mim. Hoje faço as pazes comigo mesmo, revelando ao mundo essa atitude covarde e criminosa que escondi de todos desde o ano de 1980.

Hoje, ainda que tantos anos tenham passado, posso ao menos reconstruir a cena na minha mente e, quando a fatídica pergunta me é feita mais uma vez, tenho a coragem de encher o peito e exclamar aliviado:

– Não foi o Fabinho!

E do Fabinho, nunca mais tive notícias – espero que esse incidente não o tenha levado para uma vida de crimes e perdição. Do Pré fui para a 1ª série, em outra escola, e jamais tive contato com a velha turma.

Se você, que está lendo esta bombástica revelação, conhece o Fabinho, que estudou na Escolinha Padre Raposo, em 1980, na Rua Cuiabá, na Mooca, peço-lhe a gentileza de compartilhar este texto até que chegue às mãos dele. Nunca é tarde para corrigir os erros do passado.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Brasileiros pagam R$ 15 mil para ouvir pessoas falando português

Pelo preço de uma viagem de sete dias à Europa, você pode desfrutar a virada do ano em... São Paulo. É o que nos diz a matéria de Alexandre Bazzan para o Estadão, que você pode ler aqui.

De acordo com a reportagem, os preços de hospedagem em alguns hotéis do litoral norte de São Paulo durante o réveillon equivalem a uma semana em Paris, Madri ou Berlin. O Hotel Aldeia de Sahy, por exemplo, possui pacotes para duas pessoas que variam de R$ 11 mil a R$ 13 mil. Por esses mesmos R$ 13 mil o casal pode curtir a virada do ano em Roma – passagens aéreas inclusas. Se a grana estiver curta, Lisboa ou Madri saem por R$ 8 mil e R$ 10 mil o casal.

Que hotéis brasileiros queiram aproveitar a virada do ano para faturar, nada contra. Sou ferrenho defensor do bom e velho capitalismo. Também não questiono a qualidade desses hotéis – muitos possuem padrões internacionais – apesar de hotéis europeus com a mesma qualidade não cobrarem esse absurdo.

O que me espanta é o fato de brasileiros desembolsarem pequenas fortunas para permanecerem no Brasil durante o réveillon. Ora, se tenho à disposição treze ou quinze mil reais para viajar, a última coisa que eu quero é ouvir pessoas falando português ao meu redor.

O Brasil eu o tenho o ano inteiro. Se é possível escolher, por que me acotovelar entre brasileiros pulando sete ondinhas na praia, se posso ver a queima de fogos na Torre Eiffel, ouvindo a língua de Descartes acompanhado de bom vinho? Ou caminhar pelas ruas cobertas de neve na Alemanha, apreciando a arquitetura e a história viva ecoando pelas paredes. Ou ainda curtir a animação dos madrilenos e todos os encantos que a Espanha oferece.

As pessoas que pagam caro para ficar no Brasil vivem em ‘bolhas’. São os que dizem que este é o melhor país do mundo e, mesmo quando viajam para fora, não se esforçam para aprender outro idioma e cultura. É o sujeito que vai ao Japão e acha tudo horrível porque lá não tem feijoada e churrasco.

E, claro, além do motivo cultural (ou a falta dele), há o fator status. O brasileiro, em especial o paulista, adora pagar caro para se exibir. Não é o fato de ir a um bom restaurante ou possuir um bom celular, mas sim ser visto nesse restaurante portando o celular. Ele sequer sabe mexer no celular e nem gosta dos pratos do restaurante – mas se todo mundo vai, ele tem que ir também. Perde-se aí duas capacidades intelectuais essenciais: a opinião e a comparação.

Enfim, o Brasil oferece boas opções para quem vai ficar por aqui no réveillon. E não chegam nem perto dos valores cobrados por esses hotéis.

Se você não tem condições de escapar e vai ficar no Brasil na virada do ano, faça um favor ao seu intelecto (e ao seu bolso): Não pague caro para ouvir pessoas falando português.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Sobre a inutilidade das estatísticas e institutos de pesquisa

O país viveu em outubro de 2014 um surto de indignação em relação aos institutos de pesquisa e suas estatísticas furadas durante as eleições, o que gerou piadas referentes às tais ‘margens de erro’. Margens largas e generosas, pelo visto, pois erraram (?) miseravelmente as previsões de primeiro e segundo turno entre Dilma e Aécio.

O que espanta não são erros do Ibope ou Datafolha. Espanta é ainda ver gente acreditando nesses números. Acreditar em pesquisas (qualquer uma), por mais ‘cientificas’ que sejam, é o mesmo que acreditar em horóscopo. Aliás, a semelhança entre os dois é muito maior do que você imagina.

Conheci uma pessoa que escrevia os horóscopos de vários sites e jornais. Do alto de seu conhecimento esotérico, as previsões eram escritas assim:

“Áries: Deixa ver... Hã... Para este site acho que Áries hoje está em um momento romântico e deve prestar atenção nos sinais, pois a alma gêmea está perto. E cuidado com gastos desnecessários para não ter surpresas no fim do mês.”

E então ele inventava um texto diferente para outro site, quando não requentava ‘previsões’ de anos anteriores.

De forma semelhante, tive um colega que trabalhou no Ibope e contava que vivia arredondando números e modificando resultados de pesquisas a mando dos superiores – estes por sua vez obedecendo ordens de cachorros maiores.

Por isso, não apenas desconfie, mas não dê crédito a nenhuma pesquisa ou estudo publicado – mesmo que os resultados favoreçam sua opinião.

Sem ir tão longe, conto uma experiência pessoal:

Em meus dias de Gerente de Operações em uma agência de propaganda, atendíamos a conta de uma conhecida empresa. Tudo ia bem, não fosse a intragável menina do marketing dessa empresa, que fazia a ‘ponte’ com a agência e era nosso contato direto. Não foram poucos os embates que tive com ela.

Resumindo bastante, ela arrumou confusão com praticamente todo mundo com quem teve contato e a simples a menção de seu nome causava pavor. Pessoas que eu nem conhecia direito me chamavam de lado querendo saber se ela era grossa e estúpida assim mesmo ou se era bipolar.

Certa feita, a tal empresa resolveu promover um de seus produtos para o mercado corporativo. Montaram toda a estrutura do evento, que seria realizado no salão de convenções de um hotel e transmitido ao vivo pela internet em um site específico.

Na agência fizemos o site, que seria removido um mês depois do evento. Terminada a data prevista, tiramos o site do ar. Naquele dia, a menina do marketing me pediu o relatório de acessos do site. Disse que mandaria em seguida e fui verificar as métricas.

Qual não foi minha surpresa ao notar que minha equipe havia esquecido de inserir o código de contagem de acessos em todo o site. Não havia informação alguma a ser extraída. Nada. Zero.

Após me recuperar de uma semi parada cardíaca, cogitei alternativas para o problema, mas não via solução. Era preciso explicar que não sabíamos quantas pessoas acessaram o site porque não colocáramos os códigos de rastreamento. O simples fato de imaginar a reação da menina do marketing já me fazia querer começar a mandar currículos.

Então pensei em uma alternativa. Liguei para o gerente da área de B.I. (Business Intelligence), que era nosso especialista em números e relatórios, e pedi para ele vir até a minha mesa. Expliquei o problema e disse que precisávamos desses números. “Impossível”, disse ele, “não dá pra tirar números do nada”.

Eu disse que sabia disso, mas perguntei se ele não poderia fazer alguma ‘mágica’, afinal, ele mexia com isso o dia inteiro. “Só se eu inventasse os números, mas isso seria mentir para o cliente”, ele respondeu. “Não é melhor pedir desculpas e dizer que não acontecerá de novo? Eu falo com seu contato e explico tudo, se quiser”, ofereceu-se o especialista em números.

Obrigado!”, agradeci. “Vou ligar agora para a Fulana e coloco você na linha”, respondi.

Ah... É ‘ela’...?”, gaguejou o especialista em números.

Ficamos em pé nos encarando por uns dois minutos. Então ele puxou uma cadeira, abriu o Excel e começou a digitar: “O evento começou no dia tal, deve ter dado tantos acessos. No fim de semana caiu um pouco, depois podemos aumentar o número na semana seguinte...”.

O ‘relatório’ ficou pronto em uma hora, com direito a gráficos, slides e recomendações.

Enviei o relatório para a Fulana e fomos elogiados pelo trabalho. Sabe quem mais viu esse relatório? Ninguém. Sabe o que fizeram com aqueles números? Nada. Sabe o que as empresas fazem com todas as informações que coletam? Coisa alguma.

Relatórios, pesquisas e dados não servem para absolutamente nada porque as empresas não sabem o que fazer com eles. Sabem apenas que precisam de estatísticas porque alguém pediu. E, por isso, tanto faz se os números são reais ou não – mesmo que seja para mostrar para os chefes e depois nunca mais olhar para eles.

O mesmo vale para os inúteis institutos de pesquisa. Não importa se o que divulgam é verdade ou mentira. Amanhã ninguém vai lembrar. Além disso, eles podem alterar os resultados de um dia para o outro, usando apenas algum ‘vento que sopra do oeste’ como parâmetro.

É por essas e outras que considero tais institutos um desperdício de tempo, dinheiro e pessoas. Melhor fariam se dedicando a causas mais nobres, como calcular a probabilidade de uma pessoa ser morta por uma queda de coco na praia em vez de ser atacada por tubarão.

terça-feira, 19 de março de 2013

Declaração de remoção da sociedade

Declaração de remoção da sociedade
Após lutar contra conflitos internos em inúteis embates filosóficos, decidi me remover dessa piada de mal gosto chamada ‘sociedade’. Tomei essa decisão ao ver meus dilemas se dissolvendo à luz da razão, quando uma nova realidade se descortinou diante dos meus olhos, finalmente me fazendo entender que as pessoas no mundo desistiram de pensar – algo que demorei a aceitar.


E quando as pessoas deixam de pensar os aviões caem, prédios desabam, boates pegam fogo, corruptos são eleitos, analfabetos recebem diploma, o crime compensa, a virtude é destruída, ditadores viram heróis, o vício é elogiado, famílias se dissolvem, a felicidade é artificial e a esperança é só uma palavra.

Ao entender que as pessoas abandonaram a razão, a ideia do fim do mundo fez sentido como nunca fez em toda a minha vida. E surgiu um desespero incontrolável de não querer fazer parte disso. Impossível aceitar contradições sem valor, sem objetivo, sem cérebro.

Pensar é viver! Pensar é sentir! É mudar o mundo para melhor. Pensar é reconhecer o valor das coisas e das pessoas. Pensar é criar. É buscar sua própria felicidade e sentir orgulho do que você faz. Pensar é não ter culpa. Pensar é não aceitar a injustiça. Pensar é não exigir sacrifícios e nem se sacrificar. Pensar é enxergar o divino nos pequenos detalhes que levam às grandes obras.

E para sair desse mundo que não pensa precisei aceitar que sou egoísta e preconceituoso. Surpreso? Indignado? Você também é, apenas não admite. Aliás, desconfie de quem diz não ter preconceitos, são pessoas perigosas – geralmente políticos e artistas – que vivem da demagogia, pois não têm nenhuma outra virtude.

Mas meu preconceito não é racial, sexual nem nada assim – se você é pobre, rico, gay, hetero, branco, negro, religioso ou ateu... isso não significa nada. Seu mérito não está em quem você é, mas no que você produz, no que você cria, no valor do que você oferece ao mundo – no uso da sua mente. Se você não produz nada, não pode exigir nada.

Meu preconceito é contra ideias, não contra pessoas. Por isso resolvi me afastar de tudo o que vai contra meus valores morais e éticos. “Que valores são esses?” – você pergunta. São todos aqueles que, sob uma análise racional, considero certos, verdadeiros e bons. E não vou enumerá-los aqui, pois é preciso que você pense sozinho para descobrir e aceitar esses valores. Na análise racional dos seus conceitos individuais você chegará a conclusões semelhantes às minhas e verá que estou certo.

A razão sobre a emoção


Abandonei a emoção como métrica da vida – decisões emocionais resultam em desastres. A razão deve controlar a emoção. E minha emoção, por ser íntima e valiosa, reservo para quem e o quê a merece. Você pode achar isso frio e insensível, mas não é verdade. Apenas refinei meus sentimentos. Quando isso ocorre, você se torna mais exigente, mais seletivo e indiferente a muitas coisas. Por exemplo, sou imune a notícias de acidentes, tragédias, catástrofes e coisas assim – sério, não sinto absolutamente nada. Mas choro feito criança ao assistir este vídeo.

Deixei de me importar com os sentimentos das pessoas, mas não com as pessoas. Não entendeu? É simples: Os seus sentimentos são criados pelos seus pensamentos, e o que você pensa ou sente só diz respeito a você. Eu controlo meus sentimentos, não você. E você controla seus sentimentos, não eu.

Mas gosto de ver aqueles que amo sempre bem. Se posso fazer algo por eles, faço. Não por caridade, mas pelo prazer de vê-los felizes e fazendo a vida valer a pena. Mas só ajudo quem merece. “E como saber quem merece ou não?” – você dirá. Basta pensar! Você verá que é digno de ajuda quem não pede por ela, não se faz de vítima e nem apela para o emocional.

Até a fé exige razão, pois fé é a crença comprovada. Se você acredita porque alguém lhe disse para acreditar, sua fé é fraca e manipulável. Para seguir uma religião é preciso usar a razão: Se os atos do pregador são contrários à doutrina que ele prega, então é seu dever pensar e discordar.

É a falta do pensamento racional que leva as pessoas ao eterno conflito entre corpo e alma. Se você usa a razão e o discernimento, não terá essa aflição, pois entenderá que corpo e alma possuem um mesmo propósito: devem trabalhar juntos e livres de culpa. Só erra quem não pensa. Só erra quem espera que outros pensem por ele.

Nenhum papa, padre, pastor, rabino, guru, chefe, juiz, prefeito, governador ou presidente pode controlar sua vida. A sua vida só pode ser guiada por você. Fuja de discursos emocionados e enganadores de Obamas e Lulas. Você pode precisar de orientadores, nunca de líderes. Só precisa de líder quem não quer assumir a responsabilidade pelos seus atos. Quem desiste de pensar e tem medo de tomar decisões busca refúgio no líder (que leva a culpa pelos incompetentes).

Meu bem mais precioso é o meu tempo. E somente eu decido como usá-lo. E decidi usá-lo para minha felicidade, meus objetivos, minhas conquistas. E apesar do que você possa pensar, isso não significa satisfazer desejos irracionais ou prejudicar outras pessoas. É justamente o contrário! Por reconhecer que meu tempo é precioso e limitado, eu preciso usá-lo para os melhores propósitos possíveis, que podem ser sim egoístas – não no sentido pejorativo, mas como uma virtude racional (ou individualismo), que significa me preocupar com meus interesses particulares.

Ao entender isso você percebe que não pode perder tempo com besteiras. Seu tempo é valioso demais para se preocupar com banalidades – sejam coisas ou pessoas. Não há tempo para ódio, inveja, preguiça. É imprescindível enriquecer! Isso mesmo, enriquecer! Tornar-se rico material, cultural e espiritualmente. Você terá que escolher entre aprender algo novo ou ficar em frente à TV. Terá que pensar em como aumentar sua renda usando seu intelecto em vez de reclamar que nunca tem dinheiro. Terá que cultivar virtudes cada vez mais elevadas e puras para não se deixar arrastar pelo mal. Terá que abrir mão de muitas coisas para conquistar outras.

Ao concluir isso, menos vontade você terá de viver nessa ‘sociedade’ que exige tudo de você e não lhe dá nada em troca. Perceberá que não existe diferença entre pagar impostos e ser assaltado – ambos lhe privam de seus bens contra sua vontade para satisfazer parasitas. Perceberá que a falta de educação começa a incomodar mais. Perceberá que certos assuntos já não lhe agradam. Perceberá que a companhia de um livro é melhor do que a de certas pessoas. Perceberá que música e arte devem ser sublimes e não grosseiras. Perceberá que quanto mais incapaz a pessoa é, mas ela exigirá proteção por meio de leis. Perceberá que não vale a pena se esforçar por quem não se esforça.

Chega de sacrifícios


Quantas vezes você se matou por alguém, deixou de fazer o que gostaria para ajudar outra pessoa e depois quebrou a cara? Isso o que você fez tem um nome: Sacrifício. E apesar do que se acredita, sacrifício não é uma virtude, é burrice mesmo.

Se a ajuda que você oferece vai lhe prejudicar, isso é irracional. Você não é um mártir e o mundo não precisa de mais sacrifícios. Viver uma vida plena e feliz é uma forma de valorizar e reconhecer os sacrifícios que foram feitos no passado.

O sacrifício é diferente da privação temporária. Se você deixa de jantar fora para economizar e poder comprar algo que deseja, isso não é sacrifício, é o uso racional do seu dinheiro – você está indicando que aquilo que deseja é mais valioso do que os restaurantes.

Ajudar alguém não é sacrifício se a pessoa reconhece isso e faz valer o valor da ajuda. “Mas não é certo ajudar alguém sem esperar nada em troca?” – você perguntará. Sim, a ajuda deve ser voluntária, nunca uma obrigação. Mas é preciso saber quem ajudar, pois aí você entenderá, finalmente, o que significa “não dar pérolas aos porcos”. A melhor forma de ajudar a África, por exemplo, é parar de ajudar a África, como você pode ler aqui.

Aceite que você não pode salvar nem mudar o mundo. Não pode lutar contra o mal porque o mal sempre será mais forte. Não pode vencer o mal porque é o mal que elabora as leis. A luta sempre será injusta quando se usa as regras do adversário.

Por isso decidi parar de me sacrificar pelo mal. Decidi parar de alimentar aquilo cujo propósito é me destruir. Não posso deixar que esse parasita me obrigue a dar o sangue a troco de nada. E a única forma de fazer isso é matar o parasita de fome. Como? Simplesmente me removendo da sociedade e me recusando a fazer parte dessa festa insana.

Como se remover da sociedade?


É preciso mandar pro inferno quem diz que a verdade é relativa, que não existe certo e errado e que bem e mal são conceitos abstratos. Quem afirma isso são criminosos morais que visam destruir os valores mais sagrados que você tem. São seres do mais baixo nível, incapazes de se sustentar pelas próprias pernas e, invejosos, distorcem a realidade para justificar sua depravação, invertendo a moralidade, recompensando os maus e punindo os bons. E fazem isso sob o pretexto de lutar pelas asquerosas ‘causas sociais’, exigindo que o mundo lhes aceite pelo que são e não pelo que fazem.

Então, sim, é preciso escolher um lado. O caminho do meio nem sempre é prudente, mas é sempre o dos covardes. Ficar em cima do muro é assumir sua incapacidade de pensar. Sim, é sua obrigação diferenciar certo e errado, e você só vai conseguir isso pensando e discriminando. Sim, você deve fazer o bem e repudiar o mal em todas as circunstâncias, e isso às vezes lhe obrigará a se afastar de lugares e pessoas. Repudie quem diz “isso não tem problema”, “o mundo mudou”, “todo mundo faz”, etc. Você dirá: “Que exagero, não é preciso chegar a extremos assim.” Na verdade é preciso sim e, se você acha que não, isso só mostra como a covardia e a recusa de encarar a realidade controlam sua vida. Mas as mudanças devem ocorrer dentro de você, racionalmente. Se você deseja lutar por algo, que seja sempre pela liberdade acima de qualquer coisa.

Por isso resolvi me remover disso que chamam ‘sociedade’. Prefiro viver na civilização, onde as pessoas buscam soluções e não culpados. Onde criminosos não são “supostos”. Onde a pessoa é recompensada pelo que faz e não por quem é. Onde respeito, educação e honestidade são meras obrigações e não virtudes. Onde a verdade não resulta em processos judiciais. Onde o governo não reprime o sucesso e incentiva a incompetência. Onde o dinheiro compra produtos, não pessoas. Onde a felicidade é um meio e não um fim. Onde ninguém tem o direito de usar força física para tomar dos outros o que lhes é valioso ou de impor suas ideias sobre os outros. Onde as pessoas não percam tempo tentando salvar um mundo que não quer ser salvo.

Você deve estar se perguntando onde é esse lugar e quando vou me mudar para lá. Vamos por partes. Há um ditado que diz: “Seja você a mudança que deseja ver no mundo”. É isso que farei. Não posso mudar o mundo, mas posso mudar a mim mesmo e ser o exemplo daquilo que acredito. Mudar de lugar por causa dos problemas é levar os problemas para outro lugar.

Talvez eu não esteja em São Paulo no futuro. Quem sabe? Mas antes da mudança física é preciso a mudança da consciência. Quando a minha mudança interior estiver completa e refletida naqueles que amo, aí será a hora de mudar fisicamente. Não para fugir ou criar um 'exército de homens honrados', como um amigo sugeriu certa vez neste texto, mas para viver. Os parasitas que fiquem com as migalhas que eu deixar para trás.

Sim, eu quero fazer a vida valer a pena. Eu quero honrar aqueles que vieram antes de mim e fizeram por merecer. Eu quero ser a mudança, não no mundo, mas em mim mesmo. E sim, eu quero mais dinheiro, mais conforto, mais paz e mais segurança; e quero que aqueles que amo estejam ao meu lado para desfrutar comigo. Mas quero conquistar tudo isso pelo preço do meu esforço, nunca da minha alma.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Considerações sobre amor, sexo e relacionamento

Considerações sobre amor, sexo e relacionamento
Sempre achei que o homem que ‘coleciona’ mulheres, que acha o máximo todo dia ter uma mulher diferente e que se vangloria para os amigos de ser o ‘pegador’ é uma pessoa infeliz e perdedora – o típico loser, mesmo. É alguém inferior que precisa de autoafirmação constante porque não possui nenhum valor pelo qual se orgulhar e ser notado.


Acredito que o maior desafio, o mais difícil mesmo (e real motivo de orgulho), é conquistar a mulher que você ama não uma vez, mas todos os dias. E, meu amigo, conquistar a mesma pessoa todos os dias é infinitamente mais difícil do que conquistar uma pessoa nova por dia.

Se a pessoa vem me contar suas aventuras sexuais, ela me passa a impressão de vazia, desprovida de algo que valha a pena se ouvido. A pessoa que considera uma noite de sexo mais importante do que uma vida ao lado de alguém, envelhecendo e aprendendo juntos, é miseravelmente infeliz, ainda que nem se dê conta disso.

Onde está o esforço para manter uma relação saudável por anos, vencendo obstáculos? Se não há esforço, é porque a pessoa não vale mais a pena? Ou, talvez, nunca valeu? Que critérios então você usou para escolher essa pessoa?

Uma grande frustração minha é que nunca consegui colocar em palavras esse conceito corretamente. Até que esses dias vi a transcrição perfeita dos meus pensamentos, a qual compartilho abaixo (e me desculpo por citar Ayn Rand duas vezes seguidas em meus posts, mas, acredite, vale muito a pena):

Considerações sobre amor, sexo e relacionamento – por Ayn Rand


Só o homem com complexo de inferioridade passa a vida correndo atrás de mulheres. Pois o homem que sente desprezo por si mesmo tenta obter amor-próprio por meio de aventuras sexuais. O que é inútil, porque o sexo não é a causa, e sim o efeito e uma manifestação da imagem que um homem faz do próprio valor.

O amor é cego, dizem. O sexo é imune à razão. Mas, na verdade, a escolha sexual de um homem é o resultado e o somatório de suas convicções fundamentais.

Diga-me o que um homem acha sexualmente atraente que lhe direi qual é toda a sua filosofia de vida. Mostre-me a mulher com quem ele dorme e lhe direi a imagem que ele faz de si próprio.

O ato sexual é um ato que força o homem a ficar nu tanto no corpo quanto no espírito e a aceitar seu ego verdadeiro como padrão de valor.

O homem que está convicto do seu próprio valor e dele se orgulha há de querer o tipo mais elevado de mulher possível, a mulher que ele admira, a mais forte, porque somente a posse de uma heroína lhe dará a consciência de ter realizado algo, não apenas de ter possuído uma vagabunda desprovida de inteligência.

Ele não tenta ganhar seu valor, e sim exprimi-lo. Não há conflitos entre os padrões da sua mente e os desejos de seu corpo.

Mas o homem que está convencido de que não tem valor será atraído por uma mulher que despreza, porque ela refletirá o seu próprio eu secreto e lhe proporcionará uma fuga daquela realidade objetiva em que ele é uma fraude.

Observe o caos que é a vida sexual da maioria dos homens e repare no amontoado de contradições que constitui a sua filosofia moral. Uma deriva da outra.

O amor é nossa resposta aos nossos valores mais elevados e não pode ser outra coisa. O homem que corrompe seus próprios valores e a visão que tem da sua existência se parte em dois.

Seu corpo não lhe obedecerá, não reagirá da forma apropriada e o tornará impotente em relação à mulher que ele afirma amar, impelindo-o para a prostituta mais abjeta que puder encontrar.

E então ele não entende por que o amor só lhe provoca tédio, e a sexualidade, apenas vergonha.

Observe que a maioria das pessoas é uma criatura partida em duas, que vive pulando desesperadamente de um polo para outro.

Um dos tipos é o homem que despreza o dinheiro, as fábricas, os arranha-céus e seu próprio corpo. Geme de desespero porque não consegue sentir nada pelas mulheres que respeita, porém sente-se aprisionado por uma paixão irresistível dirigida a uma vagabunda que encontrou na sarjeta.

O outro tipo é o que chamam de prático, que despreza os princípios, as abstrações, a arte, a filosofia e a própria mente. Ele tem como único objetivo na vida a aquisição de objetos materiais e ri quando lhe falam da necessidade de considerar seu objetivo ou sua fonte.

Ele acha que tais coisas devem lhe proporcionar prazer e não entende por que quanto mais acumula, menos prazer sente. Esse é o homem que vive correndo atrás de mulheres.

Observe a tripla fraude que comete contra si próprio. Ele não reconhece sua necessidade de amor-próprio, pois ri do conceito de valor moral. No entanto, sente o profundo desprezo por si próprio que caracteriza aqueles que acham que não passam de um pedaço de carne.

Assim, ele tenta, realizando os gestos que constituem o efeito, adquirir o que deveria ser a causa.

Ele tenta afirmar o seu próprio valor por intermédio das mulheres que se entregam a ele e esquece que as mulheres que escolhe não têm caráter, nem julgamento, nem padrões de valores.

Ele diz a si próprio que tudo o que quer é o prazer físico, porém observe que ele se cansa de uma mulher em uma semana ou uma noite, que despreza prostitutas profissionais e adora imaginar que está seduzindo moças direitas que abrem uma exceção para ele.

É a sensação de realização que ele busca e jamais encontra. Que glória pode haver em conquistar um corpo desprovido de mente? Pois é esse o homem que vive correndo atrás de mulheres.

Essas mulheres estão atrás da mesma coisa que os homens que vivem andando atrás de um rabo de saia: só querem aumentar seu próprio valor por meio do número e da fama dos homens que conquistam.

Só que são ainda mais falsas, porque o valor que elas buscam nem é o ato em si, mas a impressão que vão causar nas outras mulheres, bem como a inveja que vão provocar.

Extraído de A Revolta de Atlas, de Ayn Rand.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Discurso sobre o Dinheiro

Discurso sobre o Dinheiro
Discurso de Francisco D’Anconia a respeito do dinheiro. Extraído do livro A Revolta de Atlas (Atlas Shrugged), de Ayn Rand. É longo, mas pode mudar sua forma de enxergar algumas coisas:

Discurso sobre o Dinheiro (Ayn Rand)


- Então o senhor acha que o dinheiro é a origem de todo o mal? O senhor já se perguntou qual é a origem do dinheiro? O dinheiro é um instrumento de troca, que só pode existir quando há bens produzidos e homens capazes de produzi-los. O dinheiro é a forma material do princípio de que os homens que querem negociar uns com os outros precisam trocar um valor por outro. O dinheiro não é o instrumento dos pidões, que pedem produtos por meio de lágrimas, nem dos saqueadores, que os levam à força. O dinheiro só se torna possível através dos homens que produzem. É isto que o senhor considera mau? Quem aceita dinheiro como pagamento por seu esforço só o faz por saber que ele será trocado pelo produto de esforço de outrem. Não são os pidões nem os saqueadores que dão ao dinheiro o seu valor. Nem um oceano de lágrimas nem todas as armas do mundo podem transformar aqueles pedaços de papel no seu bolso no pão de que você precisa para sobreviver. Aqueles pedaços de papel, que deveriam ser ouro, são penhores de honra; por meio deles você se apropria da energia dos homens que produzem. A sua carteira afirma a esperança de que em algum lugar no mundo a seu redor existem homens que não traem aquele princípio moral que é a origem do dinheiro. É isso que o senhor considera mau?

- Já procurou a origem da produção? Olhe para um gerador de eletricidade e ouse dizer que ele foi criado pelo esforço muscular de criaturas irracionais. Tente plantar um grão de trigo sem os conhecimentos que lhe foram legados pelos homens que foram os primeiros a fazer isso. Tente obter alimentos usando apenas movimentos físicos, e descobrirá que a mente do homem é a origem de todos os produtos e de toda a riqueza que já houve na terra.

- Mas o senhor diz que o dinheiro é feito pelos fortes em detrimento dos fracos? A que força se refere? Não é à força das armas nem dos músculos. A riqueza é produto da capacidade humana de pensar. Então o dinheiro é feito pelo homem que inventa um motor em detrimento daquele que não o inventaram? O dinheiro é feito pela inteligência em detrimento dos estúpidos? Pelos capazes em detrimento dos incompetentes? Pelos ambiciosos em detrimento dos preguiçosos? O dinheiro é feito – antes de poder ser embolsado pelos pidões e pelos saqueadores – pelo esforço honesto de todo homem honesto, cada um na medida de sua capacidade. O homem honesto é aquele que sabe que não pode consumir mais do que produz. Comerciar por meio do dinheiro é o código dos homens de boa vontade. O dinheiro baseia-se no axioma de que todo homem é proprietário de sua mente e de seu trabalho. O dinheiro não permite que nenhum poder prescreva o valor do seu trabalho, senão a escolha voluntária do homem que está disposto a trocar com você o trabalho dele. O dinheiro permite que você obtenha em troca dos seus produtos e do seu trabalho aquilo que esses produtos e esse trabalho valem para os homens que os adquirem, e nada mais que isso. O dinheiro só permite os negócios em que há benefício mútuo segundo o juízo das partes voluntárias.

- O dinheiro exige o reconhecimento de que os homens precisam trabalhar em benefício próprio, e não em detrimento de si próprio; para lucrar, não para perder; de que os homens não são bestas de carga, que não nascem para arcar com o ônus da miséria; de que é preciso oferecer-lhes valores, não dores; de que o vínculo comum entre os homens não é a troca de sofrimento, mas a troca de bens. O dinheiro exige que o senhor venda não a sua fraqueza à estupidez humana, mas o seu talento à razão humana; exige que o senhor compre não o pior que os outros oferecem, mas o melhor que o seu dinheiro pode comprar. E, quando os homens vivem do comércio – com a razão e não à força, como árbitro irrecorrível –, é o melhor produto que sai vencendo, o melhor desempenho, o homem de melhor juízo e maior capacidade – e o grau da produtividade de um homem é o grau de sua recompensa. Este é o código da existência, cujo instrumento e símbolo é o dinheiro. É isto que o senhor considera mau?

- Mas o dinheiro é só um instrumento. Ele pode levá-lo aonde o senhor quiser, mas não pode substituir o motorista do carro. Ele lhe dá meios de satisfazer seus desejos, mas não lhe cria desejos. O dinheiro é o flagelo dos homens que tentam inverter a lei da causalidade – os homens que tentam substituir a mente pelo sequestro dos produtos da mente. O dinheiro não compra felicidade para o homem que não sabe o que quer; não lhe dá um código de valores se ele não tem conhecimento a respeito de valores, e não lhe dá um objetivo, se ele não escolhe uma meta. O dinheiro não compra inteligência para o estúpido, nem admiração para o covarde, nem respeito para o incompetente. O homem que tenta comprar o cérebro de quem lhe é superior para servi-lo, usando dinheiro para substituir seu juízo, termina vítima dos que lhe são inferiores. Os homens inteligentes o abandonam, mas os trapaceiros e vigaristas correm a ele, atraídos por uma lei que ele não descobriu: o homem não pode ser menor do que o dinheiro que ele possui. É por isso que o senhor considera o dinheiro mau? Só o homem que não precisa da fortuna herdada merece herdá-la – aquele que faria sua fortuna de qualquer modo, mesmo sem herança. Se um herdeiro está à altura de sua herança, ela o serve; caso contrário, ela o destrói. Mas o senhor diz que o dinheiro corrompeu. Foi mesmo? Ou foi ele que corrompeu seu dinheiro? Não inveje um herdeiro que não vale nada; a riqueza dele não é sua, e o senhor não teria tirado melhor proveito dela. Não pense que ela deveria ser distribuída; criar cinquenta parasitas em lugar de um só não reaviva a virtude morta que criou a fortuna. O dinheiro é um poder vivo que morre quando se afasta de sua origem. O dinheiro não serve à mente que não está a sua altura. É por isso que o senhor o considera mau?

- O dinheiro é o seu meio de sobrevivência. O veredicto que o senhor dá à fonte de seu sustento é o veredicto que o senhor dá à sua própria vida. Se a fonte é corrupta, o senhor condena a sua própria existência. O seu dinheiro provém da fraude? Da exploração dos vícios e da estupidez humana? O senhor o obteve servindo aos insensatos, na esperança de que eles lhe dessem mais do que sua capacidade merece? Baixando seus padrões de exigência? Fazendo um trabalho que o senhor despreza para compradores que o senhor não respeita? Neste caso, o seu dinheiro não lhe dará um momento sequer de felicidade. Todas as coisas que o senhor adquirir serão não um tributo ao senhor, mas uma acusação; não uma realização, mas um momento de vergonha. Então o senhor dirá que o dinheiro é mau. Mau porque ele não substitui seu amor-próprio? Mau porque ele não permite que o senhor aproveite e goze sua depravação? É este o motivo de seu ódio ao dinheiro? O dinheiro será sempre um efeito, e nada jamais o substituirá na posição de causa. O dinheiro é produto da virtude, mas não dá virtude nem redime vícios. O dinheiro não lhe dá o que o senhor não merece, nem em termos materiais nem em termos espirituais. É este o motivo de seu ódio ao dinheiro? Ou será que o senhor disse que é o amor ao dinheiro que é a origem de todo o mal?

- Amar uma coisa é conhecer e amar a sua natureza. Amar o dinheiro é conhecer e amar o fato de que o dinheiro é criado pela melhor força que há dentro do senhor, a sua chave-mestra que lhe permite trocar o seu esforço pelo esforço dos melhores homens que há. O homem que venderia a própria alma por um tostão é o que mais alto brada que odeia o dinheiro – e ele tem bons motivos para odiá-lo. Os que amam o dinheiro estão dispostos a trabalhar para ganhá-lo. Eles sabem que são capazes de merecê-lo. Eis uma boa pista para saber o caráter dos homens: aquele que amaldiçoa o dinheiro o obtém de modo desonroso; aquele que o respeita o ganha honestamente. Fuja do homem que diz que o dinheiro é mau. Essa afirmativa é o estigma que identifica o saqueador, assim como o sino indicava o leproso. Enquanto os homens viverem juntos na terra e precisarem de um meio para negociar, se abandonarem o dinheiro, o único substituto que encontrarão será o cano do fuzil.

- O dinheiro exige do senhor as mais elevadas virtudes, se o senhor quer ganhá-lo ou conservá-lo. Os homens que não têm coragem, orgulho nem amor-próprio, que não têm convicção moral de que merecem o dinheiro que têm e não estão dispostos a defendê-lo como defendem suas próprias vidas, os homens que pedem desculpas por serem ricos – esses não vão permanecer ricos por muito tempo. São presa fácil para os enxames de saqueadores que vivem debaixo das pedras durante séculos, mas que saem do esconderijo assim que farejam um homem que pede perdão pelo crime de possuir riquezas. Rapidamente eles vão livrá-lo dessa culpa. Então o senhor verá a ascensão dos homens que vivem uma vida dupla – que vivem da força, mas dependem dos que vivem do comércio para criar o valor do dinheiro que eles saqueiam. Esses homens vivem pegando carona com a virtude. Numa sociedade onde há moral eles são os criminosos, e as leis são feitas para proteger os cidadãos contra eles. Mas quando uma sociedade cria uma categoria de criminosos legítimos e saqueadores legais – homens que usam a força para se apossar da riqueza de vítimas desarmadas – então o dinheiro se transforma no vingador daqueles que o criaram. Tais saqueadores acham que não há perigo em roubar homens indefesos, depois que aprovam uma lei que os desarme. Mas o produto de seu saque acaba atraindo outros saqueadores, que os saqueiam como eles fizeram com os homens desarmados. E assim a coisa continua, vencendo sempre não o que produz mais, mas aquele que é mais implacável em sua brutalidade. Quando o padrão é a força, o assassino vence o batedor de carteiras. E então esta sociedade desaparece, em meio a ruínas e matanças.

- Quer saber se este dia se aproxima? Observe o dinheiro. O dinheiro é o barômetro da virtude de uma sociedade. Quando há comércio não por consentimento, mas por compulsão – quando para produzir é necessário pedir permissão a homens que nada produzem – quando o dinheiro flui para aqueles que não vendem produtos, mas influência – quando os homens enriquecem mais pelo suborno e favores do que pelo trabalho, e as leis não protegem quem produz de quem rouba, mas quem rouba de quem produz – quando a corrupção é recompensada e a honestidade vira um sacrifício – pode ter certeza de que a sociedade está condenada. O dinheiro é um meio de troca tão nobre que não entra em competição com as armas e não faz concessões à brutalidade. Ele não permite que um país sobreviva se metade é propriedade, metade é produto de saques. Sempre que surgem destruidores, a primeira coisa que eles destroem é o dinheiro, pois o dinheiro protege os homens e constitui a base da existência moral. Os destruidores se apossam do ouro e deixam em troca uma pilha de papel falso. Isto destrói todos os padrões objetivos e põe os homens nas mãos de um determinador arbitrário de valores. O dinheiro era um valor objetivo, equivalente à riqueza produzida. O papel é uma hipoteca sobre riquezas inexistentes, sustentado por uma arma apontada para aqueles que têm de produzi-las. O papel é um cheque emitido por saqueadores legais sobre uma conta que não é deles: a virtude de suas vítimas. Cuidado que um dia o cheque é devolvido, com o carimbo: ’sem fundos’.

- Se o senhor faz do mal o meio de sobrevivência, não é de se esperar que os homens permaneçam bons. Não é de se esperar que eles continuem a seguir a moral e sacrifiquem suas vidas para proveito dos imorais. Não é de se esperar que eles produzam, quando a produção é punida e o saque é recompensado. Não pergunte quem está destruindo o mundo: é o senhor. O senhor vive no meio das maiores realizações da civilização mais produtiva do mundo e não sabe por que ela está ruindo a olhos vistos, enquanto o senhor amaldiçoa o sangue que corre pelas veias dela – o dinheiro. O senhor encara o dinheiro como os selvagens o faziam, e não sabe por que a selva está brotando nos arredores das cidades. Em toda a história, o dinheiro sempre foi roubado por saqueadores de diversos tipos, com nomes diferentes, mas cujo método sempre foi o mesmo: tomar o dinheiro à força e manter os produtores de mãos atadas, rebaixados, difamados, desonrados. Esta afirmativa de que o dinheiro é a origem do mal, que o senhor pronuncia com tanta convicção, vem do tempo em que a riqueza era produto do trabalho escravo – e os escravos repetiam os movimentos que foram descobertos pela inteligência de alguém e durante séculos não foram aperfeiçoados.

- Enquanto a produção era governada pela força, e a riqueza era obtida pela conquista, não havia muito que conquistar. No entanto, no decorrer de séculos de estagnação e fome, os homens exaltavam os saqueadores, como aristocratas da espada, aristocratas de estirpe, aristocratas da tribuna, e desprezavam os produtores, como escravos, mercadores, lojistas – industriais. Para a glória da humanidade, houve, pela primeira e única vez na história, uma nação de dinheiro – e não conheço elogio maior aos Estados Unidos do que esse, pois ele significa um país de razão, justiça, liberdade, produção, realização. Pela primeira vez, a mente humana e o dinheiro foram libertados, e não havia fortunas adquiridas pela conquista, mas só pelo trabalho, e ao invés de homens da espada e escravos, surgiu o verdadeiro criador da riqueza, o maior trabalhador, o tipo mais elevado de ser humano – o self-made man – o industrial americano. Se me perguntarem qual a maior distinção dos americanos, eu escolheria – porque ela contém todas as outras – o fato de que foram os americanos que criaram a expressão “fazer dinheiro”. Nenhuma outra língua, nenhum outro povo jamais usara estas palavras antes, e sim “ganhar dinheiro”; antes, os homens sempre encaravam a riqueza como uma quantidade estática, a ser tomada, pedida, herdada, repartida, saqueada ou obtida como favor. Os americanos foram os primeiros a compreender que a riqueza tem que ser criada. A expressão ‘fazer dinheiro’ resume a essência da moralidade humana. Porém foi justamente por causa desta expressão que os americanos eram criticados pelas culturas apodrecidas dos continentes de saqueadores.

- O ideário dos saqueadores fez com que pessoas como o senhor passassem a encarar suas maiores realizações como um estigma vergonhoso, sua prosperidade como culpa, seus maiores filhos, os industriais, como vilões, suas magníficas fábricas como produto e propriedade do trabalho muscular, o trabalho de escravos movidos a açoites, como na construção das pirâmides do Egito. As mentes apodrecidas que dizem não ver diferença entre o poder do dólar e o poder do açoite merecem aprender a diferença na sua própria pele, que, creio eu, é o que vai acabar acontecendo. Enquanto pessoas como o senhor não descobrirem que o dinheiro é a origem de todo bem, estarão caminhando para sua própria destruição. Quando o dinheiro deixa de ser o instrumento por meio do qual os homens lidam uns com os outros, os homens se tornam os instrumentos dos homens. Sangue, açoites, armas – ou dólares. Façam sua escolha – não há outra opção – e o tempo está esgotando.

Quais são seus planos para este ano? Reclamar ou gerar riqueza?

terça-feira, 28 de agosto de 2012

O que podemos aprender andando de metrô

O que podemos aprender andando de metrô
Há um ano e meio tenho ido trabalhar de metrô. Metrô e trem. O carro fica com minha esposa, que leva 15 minutos pra chegar ao trabalho; enquanto eu levo cerca de 1h20 (mesmo se fosse de carro). Foi uma decisão lógica, já que gastamos a mesma coisa – eu com passagens, ela com gasolina. Se invertêssemos, ela continuaria gastando o mesmo, já eu triplicaria esse valor.


Mas não é sobre gastos que pretendo falar, e sim com o fascinante aprendizado antropológico que se pode aprender no metrô e trem. Meu trajeto consiste em pegar a Linha Verde na Estação Vila Prudente, seguir até a Consolação, fazer baldeação para a Linha Amarela, seguir para a Estação Pinheiros, fazer baldeação para a CPTM na Linha Esmeralda e ir até a Estação Berrini. De lá, mais uns 10 minutos de caminhada até a empresa. Na volta, é o caminho inverso.

Ando de metrô em São Paulo desde garoto, quando só existiam as linhas Vermelha e Azul. Minhas incursões ao centro da cidade, às livrarias e sebos, à Galeria do Rock e ao bairro da Liberdade sempre foram feitas de metrô – mesmo depois de ter um carro. Mas é claro que os tempos mudaram. A fauna aumentou e, com ela, o contato e o calor humano. Creio que uma salutar visita ao metrô e aos trens da CPTM poderia explicar muito sobre os hábitos coletivos do paulistano. Qualquer sociólogo ou antropólogo pode se deliciar com uma infinidade de informações. Eu mesmo já aprendi muito, como listo a seguir.

Andando de metrô e trem eu aprendi que:

  1. As pessoas não sabem a diferença entre esquerda e direita nas escadas e corredores.
  2. Educação e respeito são itens opcionais, portanto, deixe-os em casa.
  3. Fila indiana por ordem de chegada é bobagem, amontoe-se ao lado do primeiro da fila e entre correndo na frente dele assim que as portas abrirem.
  4. As placas de sinalização estão ali com o objetivo de serem ignoradas.
  5. Os engenheiros que projetaram as estações são babuínos com Alzheimer que nunca tiveram contato com um ser humano na vida.
  6. O fato de desligarem as escadas rolantes e esteiras em horários de pico só reforça a afirmação acima.
  7. Zíbia Gasparetto é a alta cultura literária dos usuários da Linha Verde. Na Linha Amarela, você só é culto se estiver lendo os pesados volumes de Game Of Thrones (em inglês, nunca as traduções).
  8. Ninguém nasce com preconceito, ele é adquirido andando de trem e metrô.
  9. Se você vai descer na próxima estação e o vagão está lotado, espere até as portas abrirem para avisar isso e comece a empurrar todo mundo.
  10. Trens lotados não significam que você deve esperar o próximo, e sim jogar-se para dentro até quebrar as costelas de alguém.
  11. Nem todos os idosos são bonzinhos e adoráveis.
  12. Nunca se deve esperar as pessoas saírem do vagão para entrar. Empurre-as de volta na aglomeração como se sua vida dependesse disso.
  13. Responder mensagens pelo celular (ou ler um livro) enquanto anda é ótimo para atrasar a vida de todos que estão atrás de você.
  14. Os bancos reservados para idosos e deficientes causam sonolência incontrolável em pessoas comuns. Sem falar na dor, pois muitos que sentam nesses bancos sob o olhar reprovador das pessoas fazem uma careta de dor, fingindo passar mal.
  15. A Linha Esmeralda (CPTM) já teve mais de 91 falhas desde o começo do ano, ou seja, de janeiro pra cá, foram praticamente três meses com problemas.
  16. O ser humano não foi criado para viver em sociedade.
Se você também tirou grandes lições de vida do transporte público, fique à vontade para comentar e aumentar esta lista.

sábado, 14 de abril de 2012

O brasileiro está lendo menos?

O brasileiro está lendo menos?
Há milhares de anos, quando estudei desenho no colegial técnico, tínhamos o hábito de comparar preferências de leitura com os colegas de classe. Estávamos saindo da adolescência e, ainda que egressos das histórias em quadrinhos, nosso universo cultural era amplo – nos interessávamos por assuntos diversos e não apenas os relacionados às nossas pretensas carreiras.


Da antiga turma, o Tarcísio Salvador (de quem perdi contato há anos) dizia que deveríamos ler de tudo ou seríamos "semimortos". Ele era um filósofo-intelectual com visual gótico e sempre vinha com assuntos transcendentais. Mas tinha razão – se lêssemos apenas quadrinhos porque desejávamos ser desenhistas, estaríamos limitados a um universo insignificante comparado à riqueza de assuntos que o mundo literário oferecia.

Ler enriquece, transforma, liberta. Somente pela leitura o ser humano pode sair da barbárie. Difícil encontrar leitores inveterados que gostem de multidões, barulho e algazarras. A leitura nos torna civilizados. E civilização é silêncio.

Sinto agonia quando não tenho nada para ler. Em casa sempre estou com livro em punho. Geralmente leio dois por vez – um no tradicional formato de papel e outro digital, no iPod – graças aos e-books ampliei meu volume de leitura.

Não tenho muito respeito por quem não lê ou não gosta de livros. São pessoas limitadas com as quais não dá para manter longos diálogos. Muito diferente de quando conversamos com alguém que lê muito, onde horas de bate-papo sequer são notadas.

E há algumas semanas vi a curiosa notícia de que o hábito de leitura caiu no Brasil. O brasileiro está lendo menos, é o que nos diz uma pesquisa do Instituto Pró-Livro em parceria com o Ibope. O número de leitores caiu de 95,6 milhões (55% da população), em 2007, para 88,2 milhões (50%), em 2011.

De acordo com Marina Carvalho, supervisora da Fundação Educar DPaschoal, uma das razões para a queda no hábito de leitura é a falta de estímulos vindos da família. “"Se em casa as crianças não encontram pais leitores, reforça-se a ideia de que ler é uma obrigação escolar”, diz a especialista. “As crianças precisam estar expostas aos livros antes mesmo de aprender a ler. Assim, elas criam uma relação afetuosa com as publicações e encontram uma atividade que lhes dá prazer.”"

Nisto estou de acordo. Da minha parte comecei a ler cedo, ainda criança. Não só quadrinhos, mas qualquer livro que me caísse em mãos. Tanto na casa dos meus pais quanto na dos meus avós sempre havia livros dando sopa. Mesmo que não compreendesse bem os assuntos, gostava de mergulhar na leitura. Hoje, para mim, ler é tão vital quanto respirar.

Mas não entendo as campanhas de incentivo à leitura. Ou você gosta de ler, ou não gosta. Como incentivar alguém a fazer algo que considera uma tortura? Duvido que alguém mude de opinião por causa de um cartaz dizendo que ler é bom. Não que eu seja contra o incentivo à leitura, só não vejo eficácia nele. Se desde criança a pessoa não gosta de ler, não é de adulta que mudará de ideia – ela sempre preferirá futebol e novela a um Herman Melville. Até porque, elevando-se a cultura literária da população, adeus futebol e novela.

Que o leitor do blog não pense que desejo extinguir o futebol. Óbvio que se pode curtir um jogo do seu time e ainda assim ler bons livros – mas o esporte deixaria de ser a única forma de entretenimento. Já novelas deviam desaparecer.

Volto ao fato de que o brasileiro está lendo menos. E acho a pesquisa duvidosa, afinal, quando o brasileiro leu mais? Fato que vejo bastante gente com livros no metrô. Mas mesmo esses são minoria ante a massa inculta. E há de se analisar ainda a qualidade do que se lê –-- de nada adianta aumentar leitores de Paulos Coelhos e Stephenies Meyers da vida.

Eu não tenho nenhuma fórmula mágica para fazer o brasileiro ler (bons) livros. Nunca parei para pensar nisso. Há vários fatores envolvidos. Talvez a saída fosse a grande mídia, principalmente a televisão, iniciar uma campanha massiva com personagens, atores e celebridades sempre recomendando livros. Mas a televisão não faria uma campanha que acabaria prejudicando a si própria. Sem mencionar que celebridades também não conhecem bons livros.

Se os pais não leem e não transmitem o prazer da leitura aos filhos, estes por sua vez não terão o que repassar a seus filhos – nisso já temos três gerações avessas a livros. Resta aos professores a tarefa de fazer os alunos se interessarem pela leitura, mas aí esbarramos nos livros que o governo os obriga a ler. E convenhamos que entre certos autores nacionais e o analfabetismo, a escolha é difícil.

Volto à pré-história: Trabalhei em uma locadora de games quando garoto. Fazíamos promoções em que o cliente alugava os jogos num dia, passava o final de semana e pagava uma diária na segunda. Quem atrasasse pagava as diárias extras. Foi o caso de um senhor que, ao me entregar os jogos, cobrei-lhe os dias a mais. Ele questionou o valor e expliquei sobre o atraso. Ele perguntou onde estava escrito que deveria pagar a multa e eu lhe mostrei o papel que ele havia assinado, onde havia o texto explicativo e, também, apontei para um enorme aviso colado na parede com esse mesmo texto. E ele, irritado: "Ah, mas brasileiro não lê".

E estamos assim há décadas. Quanto menos as pessoas leem, mais arrogantes, manipuláveis e rasas se tornam. Se há uma coisa que todos os livros que li me ensinaram, é que quem lê muito reconhece que não sabe nada; e quem não lê nada acha que sabe muito.

quinta-feira, 22 de março de 2012

A biografia de Steve Jobs

A biografia de Steve Jobs

Finalmente terminei de ler a biografia de Steve Jobs – sim, sei que já saiu faz tempo, mas as quase 600 páginas precisaram dividir o tempo entre trabalho, freelances e vida pessoal. É leitura que recomento de olhos fechados. Já publiquei aqui antes 10 curiosidades sobre Jobs, e agora concluo com uma análise de sua biografia.

O trabalho feito pelo veterano jornalista Walter Isaacson é impecável. E, uma vez que o livro escapou dos poderes ultracontroladores de Jobs (ele não interferiu na execução), torna-se uma obra imparcial e autêntica. Não é preciso conhecer muito de tecnologia e nem ser um fã da Apple para apreciar o livro. Devo dizer que fiquei triste quando estava nas últimas páginas. Esse é daqueles livros que você torce para não acabar.

Isaacson nos coloca sempre ao lado de Jobs, como se participássemos de cada reunião de negócios, de cada nova ideia e – o mais constante – de cada acesso de raiva e descontrole do fundador da Apple. O livro nos dá o melhor e o pior de Jobs, sem dourar a pílula. Há entrevistas com executivos que se envolveram em colossais bate-bocas com Jobs e que não voltaram a falar com ele.

Uma coisa que me fascina quando vejo um bom trabalho não é saber "como a pessoa fez isso" e sim "como ela raciocinou para chegar a esse resultado". E nesse ponto Isaacson consegue penetrar na mente de Jobs e nos mostrar como ele teve as ideias que levaram à criação do Apple II, do Macintosh, do iPod, iPhone e iPad – aliás, fiquei surpreso ao descobrir que o iPad foi criado antes do iPhone, mas ficou 'engavetado' por um tempo.

Mas Steve Jobs também era um sujeito insuportável. Não tinha o menor tato ao lidar com as pessoas, ofendia todo mundo e não poucas vezes membros da equipe saíam chorando de reuniões com ele – isso quando ele mesmo não chorava nas reuniões para conseguir o que queria. Jobs adotou a filosofia zen-budista para sua vida, mas é curioso notar que ele usou esses conceitos mais em seus produtos do que em si próprio. Isso teve alguns resultados positivos, pois muitos funcionários da Apple disseram que não teriam feito o 'impossível' sem a pressão de Jobs – mas concluíram que teriam o mesmo resultado sem insultos e explosões de ira.

Steve Jobs também não era tão inteligente. Cometeu muitos erros e muitas das funcionalidades brilhantes dos produtos da Apple não vieram dele. Sua teimosia às vezes custava caro, por isso sua equipe aprendeu a se antecipar e várias vezes faziam exatamente o oposto do que ele pedia (sem que ele soubesse). E no fim provavam que ele estava errado.

Quando Jobs foi demitido da própria Apple pelo corpo diretivo, seu ego estava tão insuportavelmente inflado que não consegui sentir pena – foi mais um "bem feito". Mas seu retorno anos depois, evitando a falência e colocando a Apple de volta no mercado é um dos pontos altos do livro. Claro, nesse intervalo ele nos brindou com a Pixar.

Sua obsessão por design e perfeição era tamanha que, no hospital, já muito debilitado pelo câncer, se recusou a colocar a máscara de oxigênio porque era "muito feia", e exigiu que lhe mostrassem cinco modelos diferentes para escolher.

Emocionante também é última visita que Bill Gates faz a Jobs, já com a doença bastante avançada, em sua casa. Foram horas de bate-papo em que ambos admitiram que o sistema de negócios de cada um funcionou bem. Uma espécie de conversa reconciliadora.

Steve Jobs não foi o homem mais importante do mundo e nem era infalível. A visão que algumas pessoas têm dele é errônea. Mas também não era um monstro. Foi um visionário apaixonado pela empresa que criou e pelos produtos que desenvolvia. Ele não aceitava a criação de nada enquanto não se sentisse emocionalmente envolvido com o que estivesse fazendo. Era capaz de jogar fora meses de trabalho e recomeçar do zero apenas por causa da cor de um parafuso imperceptível aos consumidores.

Se aprendi algo com esse livro, foi a coragem de analisar os trabalhos que já fiz e pensar: "Isso é um monte de lixo". E imaginar como um esforço maior e perfeccionista pode ser aplicado em trabalhos futuros.

Todo dia vejo no metrô pessoas lendo a biografia de Steve Jobs. Espero que, mais do que um passatempo, elas possam chegar a essa mesma conclusão que eu cheguei.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Por que não acredito em RH

Trapalhadas do RH
Se existe um departamento nas empresas pelo qual nutro extrema desconfiança, é o de Recursos Humanos. Estou para encontrar um RH que desempenhe um papel que justifique sua existência. Agências especializadas que terceirizam esse serviço são uma coisa, mas departamentos de RH dentro da própria empresa não me convencem.

Quando fiz a entrevista para a vaga de meu emprego anterior, a pessoa que me entrevistava disse: "Apesar de nossa estrutura sólida, a empresa é enxuta e não temos RH. Todos os assuntos relacionados aos funcionários são tratados com a área comercial e financeira". Sugeri que continuassem assim. Se não tinham RH e estão no mercado há vinte anos (com funcionários com dezesseis anos de casa), é prova definitiva da inutilidade desse departamento.

Você dirá que estou sendo injusto. Pode ser. Sei que há departamentos de RH que funcionam bem. Mas esses não conheci. Os que conheci tinham ideias mirabolantes, mas fugiam de propostas que realmente interessavam. De que adianta promover churrascos de integração entre as áreas com salários defasados e sem possibilidades visíveis de crescimento? É preciso ter o básico para pensar nos extras. Muitos profissionais de RH são formados em psicologia, mas é estupidez gastar quatro anos na faculdade apenas para negociar descontos em salões de beleza e manicures – acompanhei muitas dessas "conquistas" do RH. Não que fossem inúteis, mas só atendiam ao público feminino da empresa. Havia também acordos com restaurantes, mas os salões de beleza ganhavam disparado.

Certa feita, numa empresa em que trabalhei, houve uma debandada de profissionais. Pessoas em cargos estratégicos iam aos montes para os concorrentes. A fim de descobrir por que tanta gente deixava a empresa, contrataram uma especialista em RH para achar os problemas e evitar as saídas. Ela ficou dois meses ali, saiu e foi para um concorrente.

Em outra ocasião, querendo instituir um plano de cargos e salários para motivar a equipe, pedi ao RH uma lista de todos os cargos existentes e os requisitos para promoções. Disseram que não tinham essa lista, mas que minha iniciativa era excelente e que eu poderia ir em frente, elaborar a lista e passar para eles – ou seja, pedi ajuda e saí com uma incumbência.

Mas nada se compara a duas contratações que precisei fazer. Estava com equipe reduzida e alta demanda de trabalhos. Era matemático: menos pessoas entregam menos trabalhos. Briguei para contratar reforços. Quando veio a autorização, tratei de começar a busca. Conhecendo o ritmo do RH, eu mesmo divulguei as vagas, selecionei currículos e fiz entrevistas. O RH apenas formalizaria a contratação. Escolhi duas pessoas e comuniquei ao RH que ambos começariam na segunda-feira seguinte.

Naquela segunda passei o dia inteiro em reuniões externas e só voltei no fim da tarde. Olhando as duas mesas vazias, perguntei pelos novos funcionários. Ninguém sabia deles. Liguei para o RH e a resposta foi: "Ah, era para contratá-los"? Não, eu os entrevistei apenas para brincar de Jô Soares. Pedi para chamá-los o mais rápido possível e me disseram que os dois viriam na quarta-feira. Na quarta, apenas um deles apareceu. Mais uma vez chamo o RH, tentando imaginar o que aconteceu. A resposta: "Então, o outro candidato desistiu e esquecemos de avisar. Você vai querer outra pessoa"?

É por isso que departamentos de RH, para mim, caíram em total descrédito. Não posso nem mesmo culpar a incapacidade de uma única pessoa, pois os episódios acima envolveram diferentes pessoas de diferentes setores do RH. O caos é generalizado.

Se você é um proficiente profissional de RH e não concorda comigo, manifeste-se e mostre que existe vida inteligente nesse departamento. Mas se a carapuça serviu, melhor começar assinar seus e-mails como Didi, Dedé, Mussum ou Zacarias.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Vai Juventus

Ano de Copa do Mundo. E também de eleições. Quem criou o famoso ditado popular “"desgraça pouca é bobagem"” devia ter em mente anos como este. Detesto futebol. E detesto política. Ou melhor, de política até gosto, não gosto é de políticos. Mas futebol não tem jeito.


Na verdade, nada tenho contra o esporte em si. O problema é toda essa euforia sem sentido dos brasileiros em torno do futebol, como se cada partida de um campeonato fosse questão de vida ou morte para milhões de acéfalos -– e em alguns casos, acaba sendo mesmo.

Ora, que é o futebol se não vinte e dois jogadores correndo noventa minutos atrás de uma bola que, em última análise, é mais inteligente do que eles? Nunca me interessei por isso, nem quando criança. E não foi por falta de incentivo. Meu pai costumava jogar, todos os domingos, em campos localizados na região do Itaim Bibi. E sempre levava a mim e a meus irmãos com ele. Hoje o nome de alguns desses campos evoca certa nostalgia, sendo que Itororó e Clube do Mé são os mais fortes em minha lembrança. Este último, por sinal, sofrera uma matreira pichação nossa -– se é que podemos chamar assim alguns rabiscos de giz de cera -– e seu nome pintado na parede foi rebatizado para “Clube do Mélda”. Coisas de moleque.

As lembranças que tenho daquelas manhãs de domingo não se relacionam ao futebol, mas a aventuras desbravando trilhas no mato, piqueniques, escalando morros, fugindo de cachorros e assistindo a campeonatos de motocross numa pista ali perto. Com o tempo, troquei aquilo por Transformers, Thundercats e Superamigos na tevê. Os videogames viriam muito tempo depois.

Mas falava de futebol. Mesmo crescendo nesse meio, meu interesse no assunto é nulo. E por isso não entendo esse sentimento exacerbado dos torcedores, que riem, choram, gritam, xingam, brigam e se desesperam a troco de nada. Fora as filas quilométricas para comprar ingressos –- alguns faltam ao trabalho ou pedem demissão para assistir a um jogo. A mídia, cúmplice dessa patacoada, tira proveito e enaltece esse comportamento, passando a sensação de que o jogo é mais importante do que qualquer coisa na vida. Empregassem os imbecis toda essa energia em algo útil, estaríamos entre as grandes potências do planeta.

E acho que é daí que vem meu desgosto pelo futebol. Esse esporte se tornou uma poderosa barreira contra nossa evolução. Eu poderia nutrir maior interesse ou até ir a estádios se o futebol fosse encarado como aquilo que realmente é: apenas um jogo. Para mim, essa história de paixão por times é pura falta de cultura de quem não tem capacidade de se apaixonar por assuntos mais nobres. Nas Copas do Mundo, sempre torço contra o Brasil, para que perca logo e impeça o agito de bandeiras e sopro de cornetas o quanto antes.

Outro problema que o futebol cria para mim é a falta de assunto. Ao almoçar com colegas, é fácil falar de tecnologia, filmes, livros, viagens, etc. Mas quando caem no futebol, só resta me calar. Sequer sei a diferença de um zagueiro para um meio-de-campo, então não consigo manter conversa. Mas para isso encontrei a solução. Tenho prestado atenção nas conversas alheias sobre o tema e acabo decorando uma ou outra frase de impacto que denote forte opinião sobre o assunto. Pronto, basta encaixar essas frases no momento certo e obtenho uma conversa animada. Eu não faço a mínima ideia do que estou falando, mas acredito que meus interlocutores também não.

Dia desses, entretanto, acordei diferente. Não sei bem por que razão, decidi que eu precisava de um time para torcer. Mas não queria nenhum desses grandes nomes. Então lembrei que meu bairro tem seu próprio time - o Juventus - e até um estádio homônimo. Fui atrás de maiores informações e descobri que o time é péssimo, não ganha jogo algum e vive nas divisões mais baixas. Ora, pensei, é esse mesmo! Se quiser torcer pra algum time, ainda que por brincadeira, que seja um time ruim, sem destaque e que não cause decepções, uma vez que a expectativa é a de derrota. Decepcionado ficarei se ele passar a ganhar os jogos. Aí serei obrigado a abandoná-lo.

Hoje, se me perguntam para qual time eu torço, respondo com um grande sorriso: Juventus! As pessoas me olham de lado, curiosas, como se eu tivesse dito que acabei de chegar de Marte. O que me deixa a sensação de que estou no caminho certo.

Vai Juventus!

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Milton Friedman e a ganância

Um dos maiores pensadores e economistas do século XX e um dos mais influentes teóricos do liberalismo econômico e defensor do capitalismo laissez-faire e do livre mercado, Milton Friedman, em inebriante entrevista sobre a ganância:

Milton Friedman e a ganância



A explicação de Friedman chega a ser tão clara, tão óbvia, que espanta o fato de ele ter que colocá-la em palavras para o entrevistador.

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

A Fábula da Galinha

A Fábula da Galinha
Esta é uma fábula muito popular nos países de língua inglesa, onde é conhecida como The Little Red Hen, que assim como a fábula A Formiga e a Cigarra, visa ensinar o valor do trabalho e da previdência às crianças. Coisas que os esquerdistas são incapazes de entender. Existem muitas versões diferentes desta fábula, mas aqui está uma das que eu gosto mais. Vamos à ela:

A Fábula da Galinha


Era uma vez uma galinha ruiva que morava numa fazenda com seus três amigos: O cão preguiçoso, o gato dorminhoco e o pato barulhento. Um dia ela encontrou alguns grãos de trigo no quintal e decidiu chamar seus amigos para ajudar a plantá-los.

"Quem me ajuda a plantar este trigo?" -- perguntou a galinha.

“Eu não”  --  latiu o cão preguiçoso.
“Nem eu” -- miou o gato dorminhoco.
“Tô fora!” -- grasnou o pato barulhento.

"Então eu planto sozinha" -- respondeu a galinha. E assim ela fez.

Logo o trigo começou a brotar e quando a época da colheita estava próxima, ela voltou a chamar seus amigos para ajudá-la.

“Quem vai me ajudar a colher o trigo?" -- perguntou a galinha.

“Eu não, isso cansa --” latiu o cão preguiçoso.
“Nem eu, vou dormir” -- miou o gato dorminhoco.
“Eu não ganho nada com isso. Tô fora!” -- grasnou o pato barulhento.

"Então eu colho sozinha" -- respondeu a galinha. E assim ela fez.

Sabendo que seus amigos não iriam colaborar, a galinha levou sozinha o trigo para o moinho e o transformou em farinha para preparar o pão, mas mesmo assim ela perguntou: "Quem vai me ajudar a preparar o pão?"

“Eu não, se alguém souber que eu trabalhei perco a bolsa-ração” -- latiu o cão preguiçoso.
“Nem eu, recebo pensão e seguro desemprego, vou dormir” -- miou o gato dorminhoco.
“Você não vai me pagar hora extra! Tô fora!” -- grasnou o pato barulhento.

"Então eu preparo sozinha." -- respondeu a galinha. E assim ela fez.

Quando os pães ficaram prontos os outros animais vieram pedir um pedaço para a galinha ruiva, que respondeu:

"Não, eu fiz os pães sozinha e sozinha vou comê-los." E assim ela fez.
Assim termina a fábula original, a galinha come os pães e os outros animais vagabundos ficam sem nada, mas aqui no Brasil o final seria bem diferente:

Após se negar a dividir os pães, a galinha começou a ser insultada pelos outros animais.

“Maldita galinha burguesa! Exijo direitos iguais!” -- latiu o cão preguiçoso.
“Que falta de solidariedade! Sua egoísta insensível! Não sente pena dos que têm fome?” -- miou o gato dorminhoco.
“Gananciosa! Capitalista! Exploradora! Eu vou tomar seus pães à força!” -- grasnou o pato barulhento.

Com a confusão a galinha resolveu chamar a polícia e, junto com a polícia, veio um burocrata do governo dizendo que ela era obrigada a dividir os pães com o governo e com os animais que nunca a ajudaram em nada.

"Mas eu fiz tudo sozinha! Plantei o trigo, colhi, fiz a farinha, assei os pães e ninguém me ajudou em nada!" -- reclamou a galinha.

"Sim, mas você fez tudo isso dentro desta fazenda e aqui não somos capitalistas, todos devem dividir seus lucros com os demais para manutenção da paz. Isso é justiça social" -- disse o burocrata.

Depois do pequeno discurso do burocrata os demais animais comemoravam enquanto a polícia confiscava os pães da galinha ruiva:

"Bem feito! Ficou sem nada! Se ferrou galinha elitista!" -- gritavam histericamente.

De posse dos pães o governo ficou com a maior parte, deixando apenas algumas fatias duras para os animais vagabundos, que comemoraram a expropriação dos pães da galinha, aplaudindo a adoção do sistema de justiça social que lhes garantia migalhas.

Entretanto, depois de algum tempo eles começaram a se questionar porque nunca mais a galinha voltou a fazer pão...

Fonte: Mídia Livre

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

A diferença entre emprego e trabalho

Um pequeno conto para se refletir:

A diferença entre emprego e trabalho

Um empresário americano, do ramo de construções, passeava por uma estrada, na Rússia comunista, quando avistou várias pessoas no que parecia ser uma obra. O empresário parou, desceu do carro e observou a cena: vários homens, munidos de pás, trabalhavam intensamente numa escavação. O empresário dirigiu-se ao homem que julgou ser o mestre de obras e perguntou:

– O que vocês estão construindo?
– Estamos escavando um túnel, senhor. O governo quer fazer um grande túnel nessa região.
– E para que tanto trabalho braçal? Eu posso lhes vender duas escavadeiras que fariam todo o trabalho em muito menos tempo e por um preço bem menor do que a mão-de-obra atual.
– De jeito nenhum! E o que aconteceria com o emprego de todos esses homens? Preferimos manter do jeito que está.
– Ora, eu achei que o objetivo de vocês era construir um túnel, e não justificar o emprego de tanta gente. Se esse é o caso, melhor lhes tirarem as pás e lhes darem colheres.


sábado, 20 de janeiro de 2007

Turismo intelectual: Minha conversa com Janer Cristaldo

Janer Cristaldo

Cansado de ler obras de ficção e buscando por literaturas mais contemporâneas, tomei conhecimento, no final de 2004, das crônicas do escritor e jornalista Janer Cristaldo. Dono de uma inteligência e erudição únicas, Janer discorre de forma divertida em seus textos sobre variados assuntos, comumente focando-se em política e suas variações. Até então eu detestava política. Só depois que passei a ler seus artigos é que entendi melhor o assunto e comecei a interpretar notícias, em vez de engoli-las, e vi que há muito a ser lido nas entrelinhas.

Cristaldo foi, por assim dizer, o pivô para que eu reavaliasse minha maneira de escrever (e pensar). Antes, apenas despejava aqui pensamentos aleatórios. Só quando me propus a escrever textos mais longos é que percebi a influência de Janer e de outros articulistas semelhantes. Influência, bem entendido, não significa imitar, mesmo porque há assuntos abordados por ele dos quais divirjo completamente.

Em meados de 2005 enviei-lhe um e-mail comentando uma de suas crônicas. Nem esperava resposta, mas ela veio. Começamos, então, a trocar alguns e-mails - bem poucos, na verdade, pois não queria incomodar.

Durante a Bienal do Livro, em 2006, Cristaldo publicou um artigo mencionando meu blog, o que aumentou bastante o número de visitantes. Ao agradecer-lhe a citação, veio o convite: "precisamos confraternizar um dia desses". Infelizmente nunca me sobrava tempo e o encontro só veio a acontecer na última semana de 2006.

Marcamos, então, em um bar de Higienópolis. Chovia naquele fim de tarde, mas a temperatura estava agradável. Escolhemos uma das mesas na calçada para nos acomodar e lá ficamos. Foram quase quatro horas de uma conversa como há muito eu não tinha.

Janer Cristaldo é o tipo de pessoa que possui uma enorme bagagem de vida, disposto a compartilhá-la com quem se sentar à mesa para ouvi-lo. Conversamos de tudo um pouco, mas eu estava interessado mesmo em suas experiências de viagens. Tenho uma fascinação pela Europa e praticamente tudo o que diz respeito ao Velho Mundo, e Janer morara um tempo em Estocolmo, além de viajar freqüentemente para o continente europeu.

Conhecer outro país através dos olhos de alguém que sabe descrever seus ares, odores e cores é, talvez, mais interessante do que realmente estar nesse país. Em certo ponto da conversa, Cristaldo me perguntou se já estivera na Europa. Diante da minha negativa, disse ele: - Invejo-te! - Como assim? - perguntei, e a resposta: "Quando partires para lá, tu ainda terás a emoção e ansiedade da viagem, de chegar a lugares novos e vislumbrar paisagens e pessoas diferentes". E continua: "Essa emoção eu a perdi, hoje conheço Paris melhor do que São Paulo, e ir para lá já não me desperta a sensação de novidade". De fato, um ponto de vista interessante.

"Qual o país mais belo da Europa?", perguntei. Sem pensar, respondeu: "Noruega, sem dúvida! Os fiordes oferecem paisagens inigualáveis com gelo, montanhas e mar unindo-se em vistas espetaculares". E o melhor para se viver? Espanha.

As descrições dos caminhos percorridos por Cristaldo só aumentaram minha vontade de conhecer todos aqueles lugares. Perambular pelas ruas de Viena, saborear os famosos pães franceses com patês e vinhos, respirar os ares do berço da arte. Conhecer a Europa é uma das minhas metas depois de casar. Janer prontificou-se a dar-me dicas de roteiro e hospedagem.

Para Janer, só se conhece um país freqüentando seus bares. "Você não conhece um país visitando museus, precisa ir a bares e restaurantes para ter contato real com as pessoas". Cristaldo também gosta de experimentar as culinárias exóticas de cada país, mencionando um famoso peixe enlatado da Noruega que, segundo ele, tem cheiro e gosto de coisa podre, mas, "se uma nação inteira gosta, é porque deve ser bom".

De repente, uma senhora, conhecida de Janer, juntou-se a nós para pedir conselhos: - Ai, Janer! - dizia ela - estou com medo, o que vai acontecer agora que Lula foi reeleito? - Nada - respondeu ele - deviam se preocupar na época em que ele foi eleito, agora que lhe deram mais quatro anos, que ele fique por lá até o fim. Mais alguns minutos de papo e a senhora nos deixou, já menos apreensiva. Falamos bastante de política, mas eu me concentrava na Europa.

Apreciador de boa música, Cristaldo citou preferências como Mozart e disse detestar Wagner. Mencionou alguns intérpretes da música francesa, italiana e norueguesa. Também mostrou-se fã da música "mariachi" e da cantora Inezita Barroso (!). Rock ou música americana? Nem pensar.

Aproveitei para perguntar-lhe se conhecia os Estados Unidos. "Sim", respondeu, "para não dizer que sou preconceituoso, estive lá uma vez. Não gostei. Os prédios altos da 5ª Avenida causam um vento encanado muito forte"!

E o misterioso Oriente? Também não. "Se você quiser ver as pirâmides do Egito", disse, "são bonitas e valem o contato com a História, mas o Cairo é horrível! Quente e sujo! Prefiro o conforto dos hotéis europeus". Japão, China e afins também nunca despertaram interesse em Janer, mas uma cidadezinha perto do Pólo Norte chamou sua atenção.

"Gostaria de conhecer o bar dessa cidade, que possui 1500 habitantes e 3000 ursos! As pessoas precisam andar armadas o dia todo caso surja um urso intrometido". Perguntei-lhe o que tinha para se fazer num lugar desses: "Nada! Não há nada para fazer, e é exatamente por isso que ainda não fui para lá, pois nunca viajo sozinho e é difícil convencer uma companhia a partilhar tal aventura".

A conversa desenrolou-se por outros temas: literatura, arte, religião, comportamento. Chegamos ao ponto de esgotar certos assuntos e ficarmos apenas parados, bebendo e olhando o movimento na rua.

Este texto renderia muitos parágrafos mais se eu fosse comentar detalhadamente essas quatro horas de conversa. Fiz uma verdadeira viagem intelectual através das descrições e opiniões de Janer. Um contato enriquecedor, sem dúvida.

Ao levantarmos para ir embora, notei um belo restaurante do outro lado da rua. "É muito bom", afirmou Cristaldo, "aos sábados servem uma feijoada excelente aí". Eu disse que viria experimentar um dia desses, e ele me pediu que marcasse a data e, se quisesse companhia, era só chamar.

Sem dúvida, caro Janer, sem dúvida. E desta vez, tentarei marcar para antes do fim do ano.

Atualização 27/10/2014


Infelizmente este reencontro nunca aconteceu. Acabei sempre adiando a outra visita ao Janer e, com o tempo, ele adoeceu, o que tornou tudo ainda mais difícil. Chegamos a trocar mais alguns e-mails nesse meio tempo. Mas no dia 27/10/2014, o Brasil perdia uma de suas maiores mentes lúcidas e inteligentes e, na minha opinião, o maior cronista que este país já teve.

quinta-feira, 30 de novembro de 2006

Adeus ao bom velhinho

Em 1931, a Coca-Cola solicitou ao ilustrador Haddon Sundblom que desenvolvesse a imagem de um Papai Noel "humano" - antes do trabalho de Sundblom, as pessoas imaginavam o Papai Noel (ou São Nicolau) como uma espécie de gnomo ou leprechau. O pedido da Coca-Cola baseava-se em uma resposta positiva do público a um anúncio que mostrava o primeiro conceito desse personagem que seria absorvido pelo público de todo o mundo como uma tradição natalina.

Para criar o Papai Noel, Sundblom buscou inspiração no poema de Clement Moore, de 1822, intitulado Uma Visita de São Nicolau. A descrição que Moore fez do fabricante de brinquedos como um "velho rechonchudo e bem humorado" levou à criação da imagem do Papai Noel amigável e humano que conhecemos hoje.

Sundblom usou seu amigo e vizinho, Lou Prentice, um vendedor aposentado, como modelo para as ilustrações. Após a morte de Prentice, em 1940, Sundblom passou a usar a si mesmo como modelo e, por 35 anos, pintou retratos do Papai Noel para os anúncios da Coca-Cola. Haddon Sundblom morreu em 1976.

A imagem do Papai Noel de Sundblom tornou-se uma poderosíssima marca na tradição do natal e ganhou vida própria, sendo usada como decoração e até protagonizando diversos filmes hollywoodianos. Não fosse um amigo me contar essa história anos atrás, fazendo-me pesquisar mais a fundo as origens do bom velhinho de roupas vermelhas, eu jamais faria a associação com a Coca-Cola.

Então leio nesta semana a notícia de que o Papai Noel está sendo banido da Alemanha e da Áustria, acusado de ser invenção da Coca-Cola e de destruir o verdadeiro espírito de natal. Existe por lá um movimento impedindo o uso da imagem do bom velhinho entre os comerciantes que quiserem vender suas mercadorias no natal.

"Nós somos contra as coisas materiais, a ânsia de comprar, e esse homem de barba branca e de vermelho destruiu o real espírito do natal", afirma Bettina Schade, uma das organizadoras do movimento. Que Papai Noel jamais teve ligação alguma com o natal, compreende-se. Mas acusá-lo de fomentar o materialismo e a ânsia de comprar simplesmente porque sua imagem foi concebida pela Coca-Cola (há 75 anos!), é ridículo. Aliás, o conceito do Papai Noel já existia há muito mais tempo e é originário da própria Alemanha. A senhora Bettina deveria lutar, então, contra todo o comércio no natal - se usar a imagem do Noel, não pode vender; mas se não usar, pode? Que se proíba também o poema de Clement Moore. Ou, melhor ainda, por que ela não se movimenta para impedir o consumo de Coca-Cola no natal?

Até onde consigo lembrar, sempre ouvi dizer que o natal estava "comercial demais", portanto, afirmar hoje que o Papai Noel destruiu o espírito do natal não faz muito sentido. Aliás, arrisco dizer que esse "espírito" só existe no inconsciente coletivo das pessoas, porque ninguém sabe dizer como seria um natal "não comercial".

Existe, claro, a questão religiosa, mas nessa parte prefiro não entrar. Há quem comemore o natal e quem não comemore, assim, que cada um faça o que lhe parecer melhor. Não custa dizer, entretanto, que, dado o verdadeiro significado do natal, ele poderia ser comemorado todos os dias do ano, dentro do coração das pessoas, sem a necessidade de uma data específica para isso. Bolas, árvores, neve artificial, luzes coloridas e todo o resto são nada mais do que simples objetos.

Eu poderia até dar razão à Bettina Schade, se seus argumentos fossem outros além do patogênico combate ao consumismo, usando a Coca-Cola como desculpa para disparar suas farpas. Se nessa época do ano as vendas podem melhorar e ajudar a vida de patrões e empregados, por que lutar contra? Que vendam mais e mais! Não será a presença ou ausência do Papai Noel que influenciará as pessoas a comprarem.

Confesso que nunca acreditei em Papai Noel. Sempre soube que aqueles senhores de vermelho que eu via em shoppings eram apenas velhinhos contratados para alegrar as crianças e atrair os pais. É dessa forma que pretendo criar meus filhos, instruindo-os desde os tenros anos a identificar um engodo. Vocês podem dizer que a criança precisa de fantasias para desenvolver a imaginação. Concordo, mas fantasias não se restringem a Papai Noel. As fábulas de Ésopo, por exemplo, são riquíssimas em conteúdo e nem um pouco enfadonhas.

Por fim, criação da Coca-Cola ou não, Papai Noel é apenas um personagem fictício. O que não é o caso do Coelhinho da Páscoa. Esse sim existe! E ninguém me convencerá do contrário.

quarta-feira, 4 de maio de 2005

Um Dia de Fúria

Se existe um dia da semana que eu detesto, esse dia é quarta-feira. As quartas parecem debochar de mim, avisando que o último fim de semana já passou há dois dias e que ainda faltam mais dois para o próximo. Fora isso, quarta-feira também é o rodízio do meu carro, o que me força a acordar ainda mais cedo para ir trabalhar de ônibus.

Entretanto, quis o destino que justamente nessa última quarta (04/05/2005) eu presenciasse uma das cenas mais surreais que já vi na vida. E justamente por ter ido trabalhar de ônibus. Eram aproximadamente 08h40 quando desci no meu ponto e peguei o caminho em direção à agência. A manhã estava fria, mas havia sol, o que tornava a caminhada agradável. Andava despreocupado, olhando para o chão. Então, faltando exatamente um quarteirão para chegar ao serviço, enquanto atravessava um cruzamento, um som bem conhecido chamou minha atenção: pneus cantando no asfalto.

Como que desperto de um transe, ergui a cabeça a tempo de ver dois carros, uma Mercedes e um Gol, rodopiando simultaneamente na pista, próximo ao farol onde eu me encontrava. Não sei explicar como isso começou, parece que a Mercedes fechou o Gol pela direita, os dois deram um pequeno "encostão" e isso desencadeou o balé de mais de duas toneladas de metal. Num esforço tremendo, o motorista do Gol conseguiu controlar o veículo e parou exatamente de frente para uma pequena clínica de entrada recuada. Aproveitando o momento, o Gol entrou e estacionou na clínica.

Já a Mercedes não teve tanta sorte. Rodou duas vezes, tentou se estabilizar, mas não conseguiu. Mesmo freando, ele derrapou no lado oposto à clínica, batendo de frente na lateral de um outro Gol, estacionado perto da esquina do cruzamento, cerca de cinco metros à minha frente. No mesmo instante vi os pneus direitos desse Gol serem prensados contra a calçada, além de imaginar o estrago no lado do impacto. Pude ver, também, que o motorista da Mercedes era um senhor de idade, já com seus setenta anos.

Foi então que, sem mais nem menos, o motorista da Mercedes, aproveitando que o trânsito estava parado – o que lhe concedia espaço suficiente – engatou a ré, saiu de "dentro" do Gol estacionado e, fazendo uma curva surpreendentemente rápida, acelerou como nunca e mirou o Gol que havia parado na clínica. O motorista do Gol, que estava quase saindo do carro, não teve outra alternativa a não ser entrar novamente no veículo. O impacto foi fulminante. A Mercedes jogou o Gol para dentro do estacionamento da clínica, fazendo-o atravessar uma grade de ferro, arrancar uma base de concreto e derrubar o corrimão de metal que ficava na escada da entrada. O Gol só não caiu em uma vala que havia após a grade porque ficou prensado entre uma árvore e a Mercedes, mas isso não o impediu de ficar na perpendicular.

Não contente com sua performance, o velhinho da Mercedes saiu do carro, dirigiu-se ao Gol esmagado e, apontando freneticamente o dedo para o outro motorista, gritava algo como "Tá vendo? Você não queria bater? Pois então, agora bateu!". Nesse momento o local já estava repleto de curiosos. O motorista do Gol teve que sair pela janela do carro, visto que a porta estava inutilizada. Percebi que era um homem forte e sua estatura era quase o dobro da do velhinho. Mesmo assim, ele trazia no rosto uma expressão que mesclava pânico e incompreensão, e sequer respondia às acusações do inflamado ancião. Terminando de despejar todo o vocabulário de palavrões existente, o motorista da Mercedes simplesmente virou-se, saiu andando e foi trabalhar a pé, deixando o carro ligado.

Recuperado do espetáculo, também fui trabalhar. Chegando na agência, relatei o ocorrido e eis que surge a ideia: voltar ao local do acidente, munido de uma câmera, e registrar os fatos. Assim fiz, acompanhado de mais um colega de serviço. Nesse momento já haviam chegado viaturas da polícia e o dono do Gol prestava depoimento. Pelo que pude escutar, os dois carros já vinham se "estranhando" desde outras ruas, resultado de um retrovisor quebrado. Entre as dezenas de curiosos, também ouvi que o motorista da Mercedes era dono de uma clínica ali perto e foram chamá-lo. Meu colega ainda comentou: "Depois dessa, espero que ele não seja dono de uma clínica psiquiátrica!".

Finalmente o velho chegou, aparentando uma serenidade de monge tibetano. Solícito, apresentou seus documentos aos policiais e começou a conversar. Nesse momento consegui bater as fotos que desejava e fomos embora, o espetáculo havia terminado. O que impressionou foi a resistência da Mercedes, a qual sofreu dois impactos frontais e sofreu apenas amassados leves no capô, enquanto o Gol não teve a mesma felicidade.

Isso me fez pensar bastante. Quase nunca me envolvo em discussões de trânsito, mas, depois disso, passarei a tomar um cuidado redobrado. Nunca se sabe quem está atrás do volante. Um simpático velhinho pode ser tornar, de uma hora para outra, uma máquina assassina. Apesar de tudo, deve-se considerar a iniciativa do velho. Em poucos segundos destruiu dois carros mais a entrada de uma clínica apenas para satisfazer seu ódio. Ele fez o que muitos de nós gostaríamos de fazer, mas nunca tivemos coragem (ou dinheiro) o suficiente.


Finalizando, para provar meu relato, abaixo estão os links para as fotos que tirei. Na segunda e terceira imagem é possível ver o dono da Mercedes dentro do carro, entregando os documentos aos policiais: